Em um canto da capital, a cidade cinza de prédios espelhados refletindo o céu poluído, sentado no chão está um homem vestido com um casaco de couro surrado e calças desgastadas, ninguém sabe quem ele é, ninguém sabe seu nome, talvez ele mesmo já o tenha esquecido, não crê que alguém se importe com isso naquele lugar, os rostos poucos familiares olham ser ver ao homem que se levanta depois daquilo que talvez lhe tenha sido um momento de reflexão. O homem sem nome carrega uma espada quebrada às costas, mas ninguém naquela multidão poderia vê-la, eles não tem olhos feitos para isso.
O cinza choroso do céu é manchado por tonalidades mais escuras de fumaça saída das fábricas, os olhos melancólicos procuram o sol, encoberto, as nuvens bloqueiam qualquer luz, mas não há chuva para diminuir o calor ou refrescar a pele, o asfalto aquecido e a água do esgoto dão o cheio característico ao local, o homem sem nome caminha em meio aos rostos solitários de palavras que nada dizem mesmo quando suas vozes ressoam muito, ele sente correntes em seus braços, ele sente uma cruz sobre seus ombros, cansado, caído, sofrendo com as derrotas diárias a ele impostas pelo céu, vê os homens na rua berrando uns com os outros por causa algo ligado à velocidade em que andavam em seus carros, ofensas a mães e famílias inteiras, prostitutas observam a tudo no canto dos becos com cigarros nas mãos. Ele não os compreende, nem espera por essas criaturas ser compreendido, ele aceita que as sombras estão ao seu redor, elas o abraçam, envolvendo seu corpo, ele segue, nadando através delas, intangível, intocável, invisível aos olhos daqueles que não querem vê-lo. O homem sem nome é uma sombra em meio ao cinza e o cinza é o mundo ao seu redor.
Um apartamento vazio, cheio de coisas úteis, uma cama para dormir, uma TV para ver as mentiras do dia, um pequeno som para tocar alguma música que relaxe o espírito, música feita por humanos, que poderiam tocar o coração dos anjos ou assim ele vê, música é sua droga, seu remédio, sua redenção depois de mais um massacre diário imposto pelo céu sem sol e o mundo sem cor. Um prisma pendurado em um canto divide um filete de luz em um pequeno arco-íris multicolorido que se espalha pela parede antagonista à janela fechada. Os olhos de mel do homem sem nome observam um desenho na parede, a noite chega, ela é escura e fria, opondo-se ao dia cinzento e sua iluminação quase abundante, criando um novo mundo de luzes amareladas que pouco mostram e valas negras com suas sombras implacáveis. Ele se senta e coloca algo para tocar.
O homem sem nome se sente só.
Ele tira sua roupa, revelando o peito coberto de cicatrizes, cortes, arranhões, açoites, ferro quente. Cada marca indica um ferimento. Seus braços marcados por infinitas batalhas, contra o dia, contra o mundo, contra os céus. As mãos calejadas não tem significado sem a violência, ele as observa por algum tempo refletindo sobre sua vida, sobre o universo, sobre tudo o que pode significas estar ali naquele momento e falha em encontrar um motivo. Ele coloca a espada quebrada de lado, caminha até o banheiro, alisa as asas ao se olhar no espelho, pensa em como fazer a barba sem se cortar e em como fazer para conseguir abrir-se e tornar-se novamente um ser alado que vive acima das nuvens cinzas que consomem a cor do mundo. Suas asas são invisíveis aos olhos dos homens, tão negras quanto as sombras podem ser, tão densamente escuras, são marcas de um pecado, marcas do erro e do crime. O homem sem nome é um anjo caído, ele sabe os pecados que cometeu.
Rebelou-se contra as entidades superiores, ofendeu ao criador, ao seu poder absoluto. Essa foi a acusação, mas quando o havia feito? Não se lembrava, não conseguia. Só sentia as correntes em seus pulsos e o peso da ira em seu peito. Foi julgado por outros anjos sem nem mesmo ver a face do ofendido, sem que seu pai ao menos se dignasse a descer de sua morada perfeita para olhar-lhe nos olhos e cuspir em sua cara, sem piedade alguma daquele pequeno ser que ali jazia dilacerado no chão. Pela primeira vez sentiu-se descrente.
- Vamos apenas rebaixá-lo, perderá seu posto no exército celestial, assim como teu nome de Anjo, tuas cores e tuas façanhas serão esquecidas e terá seu poder reduzido ao de anjo comum por tuas ofensas contra o pai. – Disse o seu juiz, as seis asas dele refletiam a luz divina, sem permitir que seu rosto fosse visto. O impecável branco de seu manto marcava sua alta patente, o sorriso em seus lábios indicava algo de sádico em sua alma. Poderia alguém tão próximo do pai ser um sádico cruel? E se o fosse, o que estaria fazendo ali naquele lugar e não em meio aos criadores de pecado nas profundezas do calor de outros mundos? – Então, apenas dobre teu joelho e implore pelo perdão do pai. Dobre seus joelhos e implore. Agora!
Ele não aceitou se ajoelhar, não se permitiria colocar-se de joelhos por um crime que não cometeu. Viu-se embaixo de um chuveiro com água fria lhe caindo sobre a cabeça, a luz do banheiro queimara. A noite seria longa, e ele estava só.
O cinza choroso do céu é manchado por tonalidades mais escuras de fumaça saída das fábricas, os olhos melancólicos procuram o sol, encoberto, as nuvens bloqueiam qualquer luz, mas não há chuva para diminuir o calor ou refrescar a pele, o asfalto aquecido e a água do esgoto dão o cheio característico ao local, o homem sem nome caminha em meio aos rostos solitários de palavras que nada dizem mesmo quando suas vozes ressoam muito, ele sente correntes em seus braços, ele sente uma cruz sobre seus ombros, cansado, caído, sofrendo com as derrotas diárias a ele impostas pelo céu, vê os homens na rua berrando uns com os outros por causa algo ligado à velocidade em que andavam em seus carros, ofensas a mães e famílias inteiras, prostitutas observam a tudo no canto dos becos com cigarros nas mãos. Ele não os compreende, nem espera por essas criaturas ser compreendido, ele aceita que as sombras estão ao seu redor, elas o abraçam, envolvendo seu corpo, ele segue, nadando através delas, intangível, intocável, invisível aos olhos daqueles que não querem vê-lo. O homem sem nome é uma sombra em meio ao cinza e o cinza é o mundo ao seu redor.
Um apartamento vazio, cheio de coisas úteis, uma cama para dormir, uma TV para ver as mentiras do dia, um pequeno som para tocar alguma música que relaxe o espírito, música feita por humanos, que poderiam tocar o coração dos anjos ou assim ele vê, música é sua droga, seu remédio, sua redenção depois de mais um massacre diário imposto pelo céu sem sol e o mundo sem cor. Um prisma pendurado em um canto divide um filete de luz em um pequeno arco-íris multicolorido que se espalha pela parede antagonista à janela fechada. Os olhos de mel do homem sem nome observam um desenho na parede, a noite chega, ela é escura e fria, opondo-se ao dia cinzento e sua iluminação quase abundante, criando um novo mundo de luzes amareladas que pouco mostram e valas negras com suas sombras implacáveis. Ele se senta e coloca algo para tocar.
O homem sem nome se sente só.
Ele tira sua roupa, revelando o peito coberto de cicatrizes, cortes, arranhões, açoites, ferro quente. Cada marca indica um ferimento. Seus braços marcados por infinitas batalhas, contra o dia, contra o mundo, contra os céus. As mãos calejadas não tem significado sem a violência, ele as observa por algum tempo refletindo sobre sua vida, sobre o universo, sobre tudo o que pode significas estar ali naquele momento e falha em encontrar um motivo. Ele coloca a espada quebrada de lado, caminha até o banheiro, alisa as asas ao se olhar no espelho, pensa em como fazer a barba sem se cortar e em como fazer para conseguir abrir-se e tornar-se novamente um ser alado que vive acima das nuvens cinzas que consomem a cor do mundo. Suas asas são invisíveis aos olhos dos homens, tão negras quanto as sombras podem ser, tão densamente escuras, são marcas de um pecado, marcas do erro e do crime. O homem sem nome é um anjo caído, ele sabe os pecados que cometeu.
Rebelou-se contra as entidades superiores, ofendeu ao criador, ao seu poder absoluto. Essa foi a acusação, mas quando o havia feito? Não se lembrava, não conseguia. Só sentia as correntes em seus pulsos e o peso da ira em seu peito. Foi julgado por outros anjos sem nem mesmo ver a face do ofendido, sem que seu pai ao menos se dignasse a descer de sua morada perfeita para olhar-lhe nos olhos e cuspir em sua cara, sem piedade alguma daquele pequeno ser que ali jazia dilacerado no chão. Pela primeira vez sentiu-se descrente.
- Vamos apenas rebaixá-lo, perderá seu posto no exército celestial, assim como teu nome de Anjo, tuas cores e tuas façanhas serão esquecidas e terá seu poder reduzido ao de anjo comum por tuas ofensas contra o pai. – Disse o seu juiz, as seis asas dele refletiam a luz divina, sem permitir que seu rosto fosse visto. O impecável branco de seu manto marcava sua alta patente, o sorriso em seus lábios indicava algo de sádico em sua alma. Poderia alguém tão próximo do pai ser um sádico cruel? E se o fosse, o que estaria fazendo ali naquele lugar e não em meio aos criadores de pecado nas profundezas do calor de outros mundos? – Então, apenas dobre teu joelho e implore pelo perdão do pai. Dobre seus joelhos e implore. Agora!
Ele não aceitou se ajoelhar, não se permitiria colocar-se de joelhos por um crime que não cometeu. Viu-se embaixo de um chuveiro com água fria lhe caindo sobre a cabeça, a luz do banheiro queimara. A noite seria longa, e ele estava só.