terça-feira, 19 de agosto de 2014

Forged Soul

Segunda-feira, 13 de agosto, o ano 1013 no calendário Mídrio, sentado em meio a ferragens está Dray, ele labuta em um braço mecânico emperrado, novamente emperrado, as articulações travaram, quase levando embora o braço do velho Harbock junto com elas, é a quinta vez que lhe enviam aquele mesmo braço, "andam usando-o para algum trabalho pesado", pensou, olhando as partes separadas, o atrito havia superaquecido as articulações, evaporando o líquido de lubrificação, o material barato não suportava, o material caro já suportaria com dificuldade, quem dirá aquele padrão de carbono condensado até se torna luminoso como metal. Poliu novamente as peças, ajustou os tanques para fluência de plasma, organizou os ligamentos e articulações, observou as "artérias" da máquina e ajustou o fluxo para suportar levantar até 220kg. Pelo ombro deslocado do Harbock ele estava tentando levantar bem mais que isso quando quebrou aquele brinquedo, mas mais que isso e aquela peça de carbono metálico arrancaria fora o que sobrou do membro superior do velho lobo do mar quando estourasse.

Dray olhou o relógio de parede, sete e vinte, o céu já estava escuro, não havia visto isso. Olhou para a seis bonecas sobre sua mesa, todas para reparo. Alguém estava sendo especialmente violento com elas, os tanques estavam rachados e vazando o plasma cristalizado que lhes dava vida, o rotor, o "coração" como era chamado no popular pelos outros técnicos, estava saindo de sintonia com O Coração, é óbvio, a violência rompia a sintonia mágica, cada alto que o rotor dava criava uma variação no fluxo do plasma através do corpo delas, com isso os tanques eram pressurizados e despressurizados com muita velocidade, provocando rachaduras naquela estrutura frágil. Eram criaturas feitas para a diversão, não para violência.

Vejam bem, em uma cidade imensa como Ghinz você poderia encontrar várias arenas onde pagando a quantia certa poderia se divertir trocando socos com um droid de alto rendimento, preparado para receber socos, chutes, chaves de braço, estrangulamentos e reagir a eles de uma forma quase humana. Quem fazia aquilo não queria uma expressão de dor, queria a sensação de matar algo, queria se sentir um assassino mas sem ferir um "humano" e pagando bem o suficiente nos subúrbios você poderia fazer o que quisesse com uma boneca daquelas por uma noite. Era mais barato enviá-las para o reparo depois do que evitar um lucrativo cliente que gostava de ser um pouco violento.

Abriu os olhos da primeira, o negro fosco dos olhos comuns das bonecas, passou o dedo, eram gelatinosos, tinham a textura de um olho real, os fabricantes as faziam assim, quase humanas ao toque. Olhou o lado interno das bochechas e achou do lado esquerdo onde ele poderia retirar a cobertura de silicone e outros materiais que simulavam pele e mucosa humanas. Puxo, revelando o esqueleto, sem avarias às válvulas da mandíbula, o tubo transversal do pescoço estava intacto, ao menos as artérias estavam inteiras, desconectou a principal válvula do pescoço, e olhou dentro da grossa mangueira, procurando traços de obstrução provocados pelo tempo de circulação do cristal de plasma por entre aqueles tubos. Nenhum sinal de corrosão, a boneca mal tinha cinco anos de uso. Era uma criança e já estava sendo maltratada.

Removeu toda a pele da parte superior, ajustou os seio infláveis que se adaptavam ao tamanho desejado, puxou dois cilindros velhos de baixo da mesa, eram antigos e empoeirados, de um modelo provavelmente dez anos mais velho que aquela que estava à sua frente, mas deveriam servir para um uso em prol de avaliação. Conectou os tanques e encheu-os com o cristal azulado que chamavam de "cristal de plasma" ou "cristal do céu" por sua coloração. Tentou ativar, o rotor falhou.

Pegou algumas chaves, abriu o peito, avaliou as válvulas motoras e os circuitos de irrigação, assim como as runas de controle, tudo no lugar, o trabalho havia sido bem feito ali, era um modelo de boa qualidade, se trabalhasse por um ano inteiro poderia comprar uma daquelas para auxiliar nas tarefas da loja. Era nisso que pensava enquanto mexia no rotor. Então ouviu o barulho, uma batida na porta.

Na verdade foram duas batidas, secas e seguras, seguidas de outras duas, idênticas. Dray colocou as ferramentas sobre a mesa, deixando a boneca com o peito aberto, limpou os fluidos de lubrificação em um pedaço de estopa e procurou por suas chaves assim como por sua arma. Eram quase oito da noite, a loja estava fechada, ou era um pedido de emergência ou era algum viciado em cristal. Carregou a pistola, verificou o fio da faca em sua cintura, então abriu a porta. Uma garota estava caída de joelhos no chão, havia uma ferida em seu rosto da qual fluía sangue azul. "Não, não é sangue" pensou Dray "é cristal". Olhou-a, era uma droid, pelo padrão de movimentação de seu corpo, simulando a respiração ofegante, pelos olhos extremamente humanos, limpos, pelos lábios e bochechas coradas, pela feição de dor, aquela não era uma boneca, era uma imitadora, uma cópia. Uma máquina feita para fingir ser humana.

Um crime, era aquilo que estava diante de seus olhos.

Olhou-a novamente. Reparou em seus cabelos ruivos e curtos, seus olhos verdes, levemente acinzentados, lábios rosados, pele branca queimada de leve pelo sol, sobrancelhas curvas e desenhadas, cílios longos, maquiados mas não postiços. As roupas rasgadas, a manga esquerda da jaqueta jeans se perdera, separada do resto de forma brutal, a calça estava suja, ela havia tropeçado correndo, em suas mãos estava um cartão dourado, o cartão de crédito que apenas um nobre poderia ter, porém a surpresa não estava no que ela segurava, mas sim no estado de suas mãos. Eram vermelhas, estavam vermelhas.

Vermelho, vivo, pulsante, destacado como a dor em meio à ressaca.

Podia ser pigmentação exagerada, mas o vermelho estava molhado e por cima da pele, não era um ajuste errado na coloração da pele. Podia ser tinta, mas era escorrido demais, aquarela, guache, não, era viscoso demais. O cheiro ferroso tomou conta de seu nariz nesse momento e ele não teve dúvidas. Era sangue. Sangue nas mãos de uma máquina feita para fingir ser humana.

Um crime.

sábado, 12 de julho de 2014

Asas Negras (3)

Entrou no bar ainda cansado do que havia acontecido na cafeteria, reparou o lugar com o resto de poder que lhe sobrou e a vendedora colocara uma de suas sombras para sair do banheiro no lugar da antes possuída. Lembrou-se dela catando as cinzas do chão com um sorriso de estranha felicidade, ao passar pela porta esse pensamento ainda lhe ocupava a cabeça, o som alto de um blues antigo atingiu seus ouvidos e ele se sentiu renovado, limpou o sangue seco nas orelhas com um guardanapo rosa com o slogan do local: Um rosto feminino com um sorriso de canto e olhar sedutor, em sua mão, a esquerda, única que aparecia, ela segurava um cigarro. E assim cheirava o ar daquele espaço: Fumaça de cigarros, bebida velha e fresca, urina acumulada e perfumes de diversas prostitutas. Cheirava como o caos e tinha um ar de paraíso comprável, sentiu-se com certa nostalgia a constatar a aparência familiar do espaço terrestre. Havia sido chamado ali também, ou ao menos era assim que sentia: Só o homem do bar lhe ligava vez ou outra, o resto dos lugares apenas chamava-o sozinho.

Sentou-se solitário em uma mesa, a única mesa vazia, uma das poucas onde ninguém fumava. Em todas pelo menos uma mão segurava um cigarro. Eram cigarros fabricados pelo próprio bar, que podiam ser consumidos lá dentro e somente lá dentro, nenhum outro lugar permitiria aquele tipo de fumo, a fumaça tinha um cheiro quase adocicado, como madeira queimando, as pessoas fumavam olhando-se falando de qualquer coisa, notícias, esportes, crimes, morte, vida, igreja, do Pai. Nas onde ninguém fumava ou estavam bêbadas demais para conseguir acender um cigarro e erguê-lo até a boca sem provocar um incêndio, estavam se encarregando de ficar nesse estado ou cortavam em filetes um pó branco com seus cartões de crédito dourados e sugavam com força pelas narinas. Os olhos vidrados olhavam ao redor e o Anjo Caído ignorou a eles.

Pediu um suco e esperou. Observou algo que passava em uma TV, um jogo de tênis, ninguém observava a televisão, não se importavam com ela, de fato, estavam imersos em sua própria diversão, conversando algo em voz alta sem se incomodar com os outros, sem se incomodar que alguém escutasse seus segredos tão íntimos que eram gritados, ninguém ouviria a conversa da mesa ao lado, não enquanto a música estivesse rolando. Num palco do canto um guitarrista, um baixista e uma baterista brincavam de fazer do mundo canção em seus instrumentos. O Homem Sem Nome chegou a conclusão de que era mais interessante assisti-los, tomou um gole de suco e ficou encarando a moça que batia nos pratos com suas baquetas

- Gostando do Show? – Ela se sentou, seus cabelos eram de um laranja claro, as pontas do de ouro, seu queixo era fino e bem definido, as maçãs do rosto gentis, conciliando-se bem com os olhos grandes de pupilas esverdeadas. Era como ele, não tinha nome, não um que valesse a pena lembrar. – O que foi? Qual é a dessa cara? Parece ter declarado guerra ao próprio criador. – Ela acendeu um cigarro, expondo o braço com uma tatuagem que subia pela mão até o cotovelo. –  O quê? – Indagou, surpresa com o silêncio diante da piada, geralmente ele lhe daria um sorriso sem graça e falaria que foi apenas outro dia no inferno, agora precisava de um pouco de paraíso, esse era o nome do local, em inglês "Heaven". A tatuada esperava por uma resposta engraçadinha ou pelo menos uma risada pouco divertido e forçado de quem teve um dia de merda. – G... O que diabos você fez?

- "Diabos". – Forçou-se a sorrir diante do termo, não poderia ser mais preciso. – Matei um mensageiro. Ele mereceu. – Bebeu um longo gole do suco e ficou em silêncio, observando-a tragar lentamente o cigarro, observando-o, como se avaliasse a verdade daquelas palavras. – Onde você arrumou um "feito de tinta"? – Perguntou ele, com ar incomodado, finalmente rompendo o silêncio.

- Como? – Ela ainda absorvia a informação de que ele tinha matado um anjo, um verdadeiro, não apenas seu portador ou um descendente, um falsário, um caído como eles, mas a criatura celeste em si. – "Feito de tinta"?

- O demônio no seu braço. – Explicou apontando a tatuagem. Ela vinha do dedo anelar até o cotovelo em linhas curvas que terminavam em cortes pontiagudos, como uma imensa tatuagem tribal. – É uma criatura antiga, um "Feito de Tinta" ele fica em um determinado item e possui aquele que o utiliza... É claro que em nós eles só conseguem ir até certo ponto.

- Conferindo ao portador poderes sobre humanos, além de uma tatoo estilosa... Nada que eu já não tenha. Apenas gostei da ideia de ter algo para me lembrar dos tempos de cima, sabe? Lutar contra criaturas das sombras e achar que não fazia parte delas, viver como alguém que não foi expulsa da presença do pai. – Falou novamente. Ela não tinha asas negras, suas asas eram cinza-chumbo, o pecado daquela mulher era bem menor que o dele. Ela havia pedido perdão, se ajoelhado. Mesmo assim jogaram-lhe no mundo cinza. – Além disso, é sempre bom ter uma ancora, algo que te prenda à realidade, não é? – Ela ajustou o anel no dedo, respirou fundo e olhou para ele nos olhos. Esse brinquedo aqui estava em uma criança no distrito leste, ela estava na igreja abandonada... Uma menina de sete ou oito anos de idade.

- Ela tinha nome? – Perguntou, levantando a cabeça do suco para ver os olhos cheios de arrependimento daquela que estava a sua frente. Sentiu a dor palpável dela, mas não sabia o que mais perguntar. Tomou outro gole esperando resposta, ela não tragou.

- Importa? – A mulher deu uma longa tragada, como se aquela fumaça fosse tudo o que ela precisava respirar e então soltou-a lentamente, dando-se tempo para pensar, para lembrar o nome da criança. – Laura. – Respondeu a contra gosto. – E não, eu não me lembro o sobrenome, seu sádico desgraçado. Era uma criança dentro de uma igreja, ela estava coberta de sangue, tinha pedaço de gente para todos os lados, o Padre estava lá também, ele cuidou de tudo bem rápido, antes que eu percebesse o braço da menina tinha voado longe e eu estava caída com ela em meu colo, a garota sangrou até morrer... Tudo por causa disso... – Ela mexeu o anel em seu dedo como se fosse um brinquedo, a fúria em sua voz quase palpável, a em seus olhos atravessava-o a carne e a alma, atingindo algo além de seu ser, pensou que ela talvez o desejasse morto. – Uma força comparável à de um anjo de patente baixa, talvez maior, é conferida ao usuário. Essa criatura aqui é absurdamente forte para um ser feito de pecado.

- Então está permitindo que isso consuma um pouco do seu poder para que se purifique e seja selado – Ele tocou a tatuagem, ela regrediu como fumaça se dispersando perante a aproximação de sua mão. Para nunca mais machucar ninguém... Você vai ganhar uma tatuagem e tanto. Sabe disso, não é?

- Sabe, G... Você é um cara inteligente e legal. – Ela deu mais um trago e olhou para a banda atrás dela, ele quase pode sentir a vontade dela de gritar por uma música, ou por uma música em especial, viu-a desejando ouvir "Tears in Heaven", era a que sempre ouvia quando o trabalho era uma droga. – Também tem um gosto até legal para lugares... Começo a entender o motivo de te jogarem lá de cima aqui embaixo, mas... Você não precisa sentir pena de mim... Eu pedi por isso, no fim das costas... Eu pequei, errei, fui expulsa e com razão mesmo depois de me arrepender, pois meu pecado era grande demais. – Falou encostando a mão na testa, a fumaça subia do cigarro aceso.

- Eu sei L. Eu sei. Você se ajoelhou e pediu gentilmente o adiamento da noite no lugar do perdão divino completo por seu pecado, muito nobre. – Ele tomou o cigarro das mãos dela quando a moça ofereceu, tragou deixou o gosto de fumaça encher sua boca ainda mais, era horrível, odiava aquele sabor, mas o faria apenas para acalmá-la, não por qualquer sentimento humano, mas por empatia a alguém que havia perdido tudo, então apagou-o na mesa enquanto soltava a fumaça. – Mas você não precisa carregar o peso todo sozinha. Você não está só.

- Quando você fala assim eu tenho vontade de te bater... Faz parecer que o apocal... – Ela parou no meio ele não mudou de expressão. Quando começa? – Ela perguntou com clareza, ele sabia bem sobre o que era aquela pergunta, bem demais para fingir surpresa diante dela, a mulher era inteligente demais para que a enganasse.

- Já começou... Eles vão cair sobre nós e teremos guerra. Mas... O que mais podemos fazer? – Ele fez um gesto para a garçonete e pediu a música que sabia que L gostava, escrevendo o nome em um guardanapo rosado comum naquele lugar.

- Então... Vamos lutar? – Ela tomou do suco dele, olhou para o copo com ar de aprovação e fez um gesto para a garçonete que indicava "quero algo igual a isso" fez mais um gesto em sequência "mas com álcool." O anjo caído não criticou, vícios humanos também consumiam seu corpo.

- "O que mais podemos fazer"? – Ele repetiu as próprias palavras. – Somos guerreiros. Expatriados, traidores, desonrados, mas guerreiros. Soldados. O que poderíamos fazer além de lutar? O que podemos fazer além de seguir em frente?

- Mesmo por uma causa perdida?

- Principalmente por ela. – Terminou o suco ao som de um Jazz. Pediu uma garrafa de conhaque depois disso, despediu-se de L com um beijo na mão dela, o que fez a caída sorrir de forma quase sincera. Deixou uma dose do conhaque para ela, levou o resto consigo.

Olhou para trás antes de sair, viu a mulher chorando sobre mãos tremulas, entre soluços desesperados enquanto um blues triste era tocado, sentiu-se miserável por não poder consolá-la. Sentiu-se pequeno e patético como um humano, não, menos que isso, sentiu-se pequeno como só um anjo caído poderia sentir. Cerrou o punho com força, olhando para o chão, lentamente começava a chover. Abriu a porta do bar com força e a puxou pela mão, levantando-a enquanto o refrão de Tears in Heaven os acompanhava até a saída. A chuva já caia, torrencial, não haviam mais ônibus e estavam a três quilômetros do lugar para onde ele pretendia ir. Checou a garrafa de conhaque, tomou um gole dela, continuou a andar.

- Pra onde vamos? Perguntou L, assustada.

- À guerra.
– Respondeu, com calma. – Vamos falar com o Padre.