Segunda-feira, 13 de agosto, o ano 1013 no calendário Mídrio, sentado em meio a ferragens está Dray, ele labuta em um braço mecânico emperrado, novamente emperrado, as articulações travaram, quase levando embora o braço do velho Harbock junto com elas, é a quinta vez que lhe enviam aquele mesmo braço, "andam usando-o para algum trabalho pesado", pensou, olhando as partes separadas, o atrito havia superaquecido as articulações, evaporando o líquido de lubrificação, o material barato não suportava, o material caro já suportaria com dificuldade, quem dirá aquele padrão de carbono condensado até se torna luminoso como metal. Poliu novamente as peças, ajustou os tanques para fluência de plasma, organizou os ligamentos e articulações, observou as "artérias" da máquina e ajustou o fluxo para suportar levantar até 220kg. Pelo ombro deslocado do Harbock ele estava tentando levantar bem mais que isso quando quebrou aquele brinquedo, mas mais que isso e aquela peça de carbono metálico arrancaria fora o que sobrou do membro superior do velho lobo do mar quando estourasse.
Dray olhou o relógio de parede, sete e vinte, o céu já estava escuro, não havia visto isso. Olhou para a seis bonecas sobre sua mesa, todas para reparo. Alguém estava sendo especialmente violento com elas, os tanques estavam rachados e vazando o plasma cristalizado que lhes dava vida, o rotor, o "coração" como era chamado no popular pelos outros técnicos, estava saindo de sintonia com O Coração, é óbvio, a violência rompia a sintonia mágica, cada alto que o rotor dava criava uma variação no fluxo do plasma através do corpo delas, com isso os tanques eram pressurizados e despressurizados com muita velocidade, provocando rachaduras naquela estrutura frágil. Eram criaturas feitas para a diversão, não para violência.
Vejam bem, em uma cidade imensa como Ghinz você poderia encontrar várias arenas onde pagando a quantia certa poderia se divertir trocando socos com um droid de alto rendimento, preparado para receber socos, chutes, chaves de braço, estrangulamentos e reagir a eles de uma forma quase humana. Quem fazia aquilo não queria uma expressão de dor, queria a sensação de matar algo, queria se sentir um assassino mas sem ferir um "humano" e pagando bem o suficiente nos subúrbios você poderia fazer o que quisesse com uma boneca daquelas por uma noite. Era mais barato enviá-las para o reparo depois do que evitar um lucrativo cliente que gostava de ser um pouco violento.
Abriu os olhos da primeira, o negro fosco dos olhos comuns das bonecas, passou o dedo, eram gelatinosos, tinham a textura de um olho real, os fabricantes as faziam assim, quase humanas ao toque. Olhou o lado interno das bochechas e achou do lado esquerdo onde ele poderia retirar a cobertura de silicone e outros materiais que simulavam pele e mucosa humanas. Puxo, revelando o esqueleto, sem avarias às válvulas da mandíbula, o tubo transversal do pescoço estava intacto, ao menos as artérias estavam inteiras, desconectou a principal válvula do pescoço, e olhou dentro da grossa mangueira, procurando traços de obstrução provocados pelo tempo de circulação do cristal de plasma por entre aqueles tubos. Nenhum sinal de corrosão, a boneca mal tinha cinco anos de uso. Era uma criança e já estava sendo maltratada.
Removeu toda a pele da parte superior, ajustou os seio infláveis que se adaptavam ao tamanho desejado, puxou dois cilindros velhos de baixo da mesa, eram antigos e empoeirados, de um modelo provavelmente dez anos mais velho que aquela que estava à sua frente, mas deveriam servir para um uso em prol de avaliação. Conectou os tanques e encheu-os com o cristal azulado que chamavam de "cristal de plasma" ou "cristal do céu" por sua coloração. Tentou ativar, o rotor falhou.
Pegou algumas chaves, abriu o peito, avaliou as válvulas motoras e os circuitos de irrigação, assim como as runas de controle, tudo no lugar, o trabalho havia sido bem feito ali, era um modelo de boa qualidade, se trabalhasse por um ano inteiro poderia comprar uma daquelas para auxiliar nas tarefas da loja. Era nisso que pensava enquanto mexia no rotor. Então ouviu o barulho, uma batida na porta.
Na verdade foram duas batidas, secas e seguras, seguidas de outras duas, idênticas. Dray colocou as ferramentas sobre a mesa, deixando a boneca com o peito aberto, limpou os fluidos de lubrificação em um pedaço de estopa e procurou por suas chaves assim como por sua arma. Eram quase oito da noite, a loja estava fechada, ou era um pedido de emergência ou era algum viciado em cristal. Carregou a pistola, verificou o fio da faca em sua cintura, então abriu a porta. Uma garota estava caída de joelhos no chão, havia uma ferida em seu rosto da qual fluía sangue azul. "Não, não é sangue" pensou Dray "é cristal". Olhou-a, era uma droid, pelo padrão de movimentação de seu corpo, simulando a respiração ofegante, pelos olhos extremamente humanos, limpos, pelos lábios e bochechas coradas, pela feição de dor, aquela não era uma boneca, era uma imitadora, uma cópia. Uma máquina feita para fingir ser humana.
Um crime, era aquilo que estava diante de seus olhos.
Olhou-a novamente. Reparou em seus cabelos ruivos e curtos, seus olhos verdes, levemente acinzentados, lábios rosados, pele branca queimada de leve pelo sol, sobrancelhas curvas e desenhadas, cílios longos, maquiados mas não postiços. As roupas rasgadas, a manga esquerda da jaqueta jeans se perdera, separada do resto de forma brutal, a calça estava suja, ela havia tropeçado correndo, em suas mãos estava um cartão dourado, o cartão de crédito que apenas um nobre poderia ter, porém a surpresa não estava no que ela segurava, mas sim no estado de suas mãos. Eram vermelhas, estavam vermelhas.
Um crime, era aquilo que estava diante de seus olhos.
Olhou-a novamente. Reparou em seus cabelos ruivos e curtos, seus olhos verdes, levemente acinzentados, lábios rosados, pele branca queimada de leve pelo sol, sobrancelhas curvas e desenhadas, cílios longos, maquiados mas não postiços. As roupas rasgadas, a manga esquerda da jaqueta jeans se perdera, separada do resto de forma brutal, a calça estava suja, ela havia tropeçado correndo, em suas mãos estava um cartão dourado, o cartão de crédito que apenas um nobre poderia ter, porém a surpresa não estava no que ela segurava, mas sim no estado de suas mãos. Eram vermelhas, estavam vermelhas.
Vermelho, vivo, pulsante, destacado como a dor em meio à ressaca.
Podia ser pigmentação exagerada, mas o vermelho estava molhado e por cima da pele, não era um ajuste errado na coloração da pele. Podia ser tinta, mas era escorrido demais, aquarela, guache, não, era viscoso demais. O cheiro ferroso tomou conta de seu nariz nesse momento e ele não teve dúvidas. Era sangue. Sangue nas mãos de uma máquina feita para fingir ser humana.
Um crime.
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