O cinza se iluminava lentamente, duas figuras caminhavam, asas negras e chumbo bebendo a luz nascente, o anjo caído havia passado a noite em claro caminhando, pendurada em seu ombro estava L, bêbada e falante, não havia conseguido deixá-la para trás, talvez se arrependesse disso depois, depois, no momento estava preocupado em ir até o padre, lá poderia deixar a moça dormindo, lá poderia conseguir mais informação, se não mais um aliado. Lá poderia falar com um igual, um caçador como ele. Era isso que o Padre era, o mais experiente e inteligente de seu ramo. Um anjo caído que caçava demônios esquecidos pelos anjos e pelo céu. Seres que atormentavam os humanos. Fora ele que decepara o Feito de Tinta de uma garota pequena, ele poderia estar lendo os presságios também. Assim esperava o Homem Sem Nome.
A Igreja Abandonada era, como o nome sugeria, vazia. Havia um cemitério à frente da grande construção de pedra, seus túmulos estavam destruídos e revirados, o cheiro de podridão ali era mais forte que nos outros lugares da cidade, a morte profanava o ar com especial cuidado, fazendo questão de cada passo dentro daquele espaço parecesse a quem ali estava especialmente sombrio e sinistro, mesmo ao sol nascente. A sensação era amplificada para o Anjo Caído, pois ele sabia da noite eterna e do terror da guerra que estava por vir. A sensação era levemente reduzida em L, culpa a quantidade cavalar de álcool em seu sangue e sua fraqueza contra esse tipo de droga em especial, o que significava que a única coisa provocada nela pelo lugar era um desejo extremo de vomitar. Assim o fez e o Anjo caído não teve tempo, ou crueldade o suficiente para soltá-la antes de sujar sua calça, inclinou o corpo da moça, lavando uma lápide destruída com resto de suco, conhaque e ácido estomacal. A porta fechada da Igreja Abandonada se abriu sem que ninguém o fizesse e o Anjo Caído compreendeu o recado. Ajudou a moça a se recompor, colocou novamente o braço dela em seu ombro e começou a andar com calma em direção à porta aberta.
O lado de dentro cheirava a poeira, à fumaça da cidade, a coisas velhas, madeira podre, álcool e o inegável cheiro ferroso do sangue, o cheiro que significava mortes, uma das pistas da chacina que ocorrera a menos de vinte e quatro horas. Os bancos, em sua maioria, estavam destruídos. Uma cruz caída, estava lateralmente encostada em uma parede prestes a desabar pois uma de sua colunas havia cedido sob o peso do tempo, o chão estava machado de sangue, mas não havia nenhum corpo à vista, o único sinal da batalha da noite anterior eram as profundas cicatrizes de espadas que se moveram por ali, cravadas no chão e nos bancos de madeira podre. A luz entrava espaçada através das teias quebradas no alto do local, sobre o altar, olhando uma pintura de homens com muitos músculos e barba expeça montados em nuvens estava um velho padre de batina desgastada, em suas mãos um cálice e uma garrafa de vinho, em seu pescoço prata, tal como em seus cabelos. Sua barba aparada curta brilhava quando um filete ou outro de luz passava por uma das frestas dos vitrais quebrados e a atingia ela iluminando-a. Seus olhos eram o azul de piscinas especialmente limpas, o nariz longo e fino lhe curvava sobre o lábio superior dando-lhe o aspecto de um gárgula, em seu pulso um terço de madeira, junto à manga puída da batina velha. Havia fios de prata soltos ali, seus lábios finos e envelhecidos sorriram. Seu queixo fino e vampírico subiu gentilmente e ele expôs os dentes brancos e perfeitos, sem falhas, um sorriso jovem em um rosto velho.
- E quem diria que eu teria visitantes tão pouco tempo depois de um milagre... – Recitou e sua voz era grave, firme, sem qualquer resquício de surpresa. – G... Ah, meu rapaz, não lhe ensinaram como ajudar uma senhorita a vomitar? – Perguntou olhando a calça, a expressão dele era de algum tipo menos perverso de divertimento, como quem observa duas crianças brincando numa caixa de areia ou num pula-pula. – Veja só você, todo sujo, está acabando com o encantador cheiro de morte no ar com esse fedor de ácido e bebida barata, não me diga que você trouxe algo desse tipo como presente pra mim. Ah, eu tenho certeza de que você trouxe. – Ele abriu um sorriso amistoso e o Anjo Caído lhe jogou uma garrafa de Conhaque, ainda cheia. – Isso me surpreende. – E a expressão era de sincera surpresa, a surpresa de um homem muito velho com a voz de um ator experiente e o sorriso de um cantor especialmente talentoso. Tirou a tampa da garrafa e cheirou. – Essência de pecado, minha favorita. – Comentou e deu uma longa golada, longa o suficiente para parecer luxuriosa. Metade da garrafa se foi nesse processo. – A qualidade é ótima, consigo sentir todo meu ser em chamas, isso é fantástico. – Falou e tapou a garrafa. – Um presente ótimo, traga mais dez desses quando vier me visitar de novo. Coloque ela deitada naquele banco ali. Está limpo, ninguém sangrou sobre ele. Eu vou buscar um travesseiro – Disse apontando o único banco no canto ainda inteiro e virou-se, saindo sorridente com a garrafa em sua mão.
- G... Foi mal pela calça. – Disse L, em tom febril e quase delirante. – Eu te compro uma nova quando a gente voltar no centro. Você tá precisando. – Comentou, enquanto tocava no bolso esquerdo dele, o Homem Sem Nome sentiu algo movendo-se em seu estômago com aquela mão feminina ali, o Anjo Caído ignorou aquilo, sem deixar de se incomodar. – Você tem buracos no bolso... – E o dedo dela se moveu ali, inocentemente bêbado, adentrando o buraco, como se brincasse de descobrir algo novo. O frio no estômago quase o fez se dobrar, mas felizmente o barulho de passos a fez tirar a mão rapidamente e observar em direção à porta dos fundos, o Padre chegava com um par de travesseiros e um cobertor embaixo de um braço, no outro a garrafa, ainda pela metade. Silenciosamente o Anjo Caído o agradeceu.
- Então, o que traz sua excelente presença pecadora ao meu recanto para almas puras e inocentes, G? – O Padre puxou um maço velho e amassado de cigarros de algum bolso interno em sua batina desgastada, fez o mesmo com isqueiro, então puxou um cigarro tão amassado quando o pacote e o acendeu cerimoniosamente com o isqueiro que falhava. – Descobri recentemente o fumo, não é prazeroso como o sexo ou o álcool, mas ele ocupa o tempo e tira de minha mente as nuvens do medo, o que me faz lembrar que você gastou todo o tempo que eu lhe dei para começar a me responder me observando acender um cigarro. Então, o que você quer, meio-anjo? – Ele tragou, abriu a garrafa pela metade e deu um gole longo e avaliador. Suas sobrancelhas grossas desceram e seu rosto converteu-se em fúria repentina. – Diabos, garoto! Responda de uma vez ou vá embora, deixe a menina aí se quiser, não precisa se preocupar com ela, não gosto de ruivas tatuadas que bebem como um carro velho, se vai me responder responda de uma vez, pare de procurar meias palavras, rapaz, eu já vivi o suficiente para receber notícias duras, mas não sei se vou viver tempo o suficiente para ouvir sua resposta se você demorar meio século para dá-la!
- Acalme-se. – Pediu fazendo um gesto com as mãos, reforçando as palavras. – Eu vou lhe contar tudo, só é... Difícil. – Explicou isso e deu um espaço. O Padre respirou fundo e fez o mesmo gesto pra ele, como quem diz "eu já estou calmo, babaca." então se sentou e deu outra tragada e começou a beber um gole. – Eu matei um anjo. – E o gole que o Padre bebia estava no ar, junto com fumaça, ele tossia duplamente engasgado.
- Mas... – Ele tentou dizer e voltou a tossir, jogou o cigarro no chão e pisou sobre ele com raiva. – Como assim você matou um Anjo? Que tipo de Anjo? Um patrulheiro? Matar escória só traz problemas garoto, se você mata um soldado raso eles mandam um grandão te pegar, o que foi que eu te ensinei? Deixa eles falarem merda, pensar que são menos sujos que você, se eles quiserem que mijem em sua cabeça de mortal patético, você é um fruto do pecado, se um Arcanjo desce sobre nós essa cidade inteira vira cinzas, eu disse CINZAS! Não esse cinza melancólico de merda que você vê nos olhos daqueles que são iguais a você, vivendo a vida patética deles, o cinza da combustão, do pó ao pó, do nada! – Ele cuspia enquanto falava, sibilando as palavras com um sotaque forte de algum país estrangeiro, quase se embolando nos esses e erres, ressaltados. Porém percebeu que o Anjo Caído não mudou a expressão e puxou de seu bolso uma barra meio comida de chocolate, jogando para o padre. – Você não matou um verme... – Disse, olhando o chocolate que caíra impotente no chão com o baque seco que só o pecado pode fazer. A luz bateu em sua embalagem metálica e iluminou uma parte manchada de sangue seco. – O que você fez, filho, pelo amor do Pai?
- Um mensageiro, quatro asas de luz. – Apontou para as costas. – Voz irritante, arrogância, falta de experiência, habilidade em batalha zero. – Falou, e então estendeu a mão, o padre lhe jogou a garrafa e ele tomou um gole. – A noite eterna está chegando. E nós não temos mais chance de redenção. Não podemos impedi-la e o Pai parece não se importar com isso. – Tomou outro gole da bebida forte e deixou ela queimar a fúria em seu interior. – Estamos sós, Padre. A minha pergunta é: Você está conosco? – Olhou-o demoradamente, o silêncio abateu-se de forma que os sussurros do vento puderam ser ouvidos passando por entre os túmulos destruídos e os vitrais despedaçados, atingindo os bancos de madeira e a alma de cada um dos presentes, como gritos de almas desoladas e solitárias.
- Se eu estou com você... – O homem velho acendeu outro cigarro amassado com seu isqueiro que não funcionava direito. – Diabo! – Praguejou contra o mesmo e o fogo se fez, ele tragou demoradamente, dando espaço para uma reflexão silenciosa. – E por que eu estaria, criança? – Perguntou, com uma calma recém-descoberta, com placidez no olhar antes furioso. – Por quê? – Perguntou outra vez, com a mesma tranquilidade.
- Por que você vai morrer se estiver sozinho. Todos nós morreremos sós se assim ficarmos. – Falou e bebeu um gole pequeno que demorou mais que a maioria de seus goles longos, estava se dando tempo para pensar nas palavras certas. – Pois se a noite eterna vier da luz, cabe a nós que vivemos nas sombras trazer de volta um novo dia, não é? – Sorriu para ele, sem confiança, sem convicção, apenas sorria da ironia de tudo aquilo.
- "Morreremos sozinhos ou seguiremos em frente juntos" é isso? – Perguntou, tragando, seu cigarro já acabava. – Mas alguns de nós morrerão mesmo com isso, não é? Estamos falando de guerra, rapaz, você vai ver muita gente morrer quando a noite chegar e mais gente ainda morrer antes do sol poder se preparar para nascer de novo. Está pronto para essa responsabilidade, G? – Ele jogou a bituca de cigarro em meio à madeira podre e ela se ascendeu como palha. – Bom, se vamos à guerra será necessário mais que seu charme e um pouquinho de pecado para fazer um exército. Pretende recrutar a todos de um em um? Até agora você tem uma companheira cuja funcionalidade do fígado é extremamente duvidosa e um Padre que não tem igreja para rezar ou fieis para conduzir. O que nós vamos fazer, meu jovem?
- Não é óbvio? Vamos reunir pessoas de fé. – Passou a mão nos cabelos de L, ela finalmente havia dormido. – Vamos achar todos os que são como nós e uniremos eles sobre nossa bandeira, nosso desejo. – Explicou, imaginando a possível guerra.
- Oh, isso nos dá um número de, o quê, mil almas, duas mil se formos otimistas... – Avaliou a contagem de caídos dos últimos anos. – Isso se todos quiserem lutar, assim sendo são, na nossa melhor expectativa, entre covardes e fracotes, oitocentos, contra toda a horda que vem de cima e todas as divisões de criaturas sinistras que vem lá de baixo. – Ele tragou. – Mas de fato, me parece mais interessante lutar uma última vez ao invés de apenas aceitar meu destino de mortal patético e da forma como você fala até parece que podemos vencer.
- E nós podemos. – A surpresa e insegurança do padre foram palpáveis. – Não é mesmo? – Olhos vermelhos brilharam no canto da sala, uma menina chupava um pirulito olhou para os dois e sorriu de forma inocentemente maliciosa. Uma coisa que só uma criança de doze ou treze anos poderia fazer.
A Igreja Abandonada era, como o nome sugeria, vazia. Havia um cemitério à frente da grande construção de pedra, seus túmulos estavam destruídos e revirados, o cheiro de podridão ali era mais forte que nos outros lugares da cidade, a morte profanava o ar com especial cuidado, fazendo questão de cada passo dentro daquele espaço parecesse a quem ali estava especialmente sombrio e sinistro, mesmo ao sol nascente. A sensação era amplificada para o Anjo Caído, pois ele sabia da noite eterna e do terror da guerra que estava por vir. A sensação era levemente reduzida em L, culpa a quantidade cavalar de álcool em seu sangue e sua fraqueza contra esse tipo de droga em especial, o que significava que a única coisa provocada nela pelo lugar era um desejo extremo de vomitar. Assim o fez e o Anjo caído não teve tempo, ou crueldade o suficiente para soltá-la antes de sujar sua calça, inclinou o corpo da moça, lavando uma lápide destruída com resto de suco, conhaque e ácido estomacal. A porta fechada da Igreja Abandonada se abriu sem que ninguém o fizesse e o Anjo Caído compreendeu o recado. Ajudou a moça a se recompor, colocou novamente o braço dela em seu ombro e começou a andar com calma em direção à porta aberta.
O lado de dentro cheirava a poeira, à fumaça da cidade, a coisas velhas, madeira podre, álcool e o inegável cheiro ferroso do sangue, o cheiro que significava mortes, uma das pistas da chacina que ocorrera a menos de vinte e quatro horas. Os bancos, em sua maioria, estavam destruídos. Uma cruz caída, estava lateralmente encostada em uma parede prestes a desabar pois uma de sua colunas havia cedido sob o peso do tempo, o chão estava machado de sangue, mas não havia nenhum corpo à vista, o único sinal da batalha da noite anterior eram as profundas cicatrizes de espadas que se moveram por ali, cravadas no chão e nos bancos de madeira podre. A luz entrava espaçada através das teias quebradas no alto do local, sobre o altar, olhando uma pintura de homens com muitos músculos e barba expeça montados em nuvens estava um velho padre de batina desgastada, em suas mãos um cálice e uma garrafa de vinho, em seu pescoço prata, tal como em seus cabelos. Sua barba aparada curta brilhava quando um filete ou outro de luz passava por uma das frestas dos vitrais quebrados e a atingia ela iluminando-a. Seus olhos eram o azul de piscinas especialmente limpas, o nariz longo e fino lhe curvava sobre o lábio superior dando-lhe o aspecto de um gárgula, em seu pulso um terço de madeira, junto à manga puída da batina velha. Havia fios de prata soltos ali, seus lábios finos e envelhecidos sorriram. Seu queixo fino e vampírico subiu gentilmente e ele expôs os dentes brancos e perfeitos, sem falhas, um sorriso jovem em um rosto velho.
- E quem diria que eu teria visitantes tão pouco tempo depois de um milagre... – Recitou e sua voz era grave, firme, sem qualquer resquício de surpresa. – G... Ah, meu rapaz, não lhe ensinaram como ajudar uma senhorita a vomitar? – Perguntou olhando a calça, a expressão dele era de algum tipo menos perverso de divertimento, como quem observa duas crianças brincando numa caixa de areia ou num pula-pula. – Veja só você, todo sujo, está acabando com o encantador cheiro de morte no ar com esse fedor de ácido e bebida barata, não me diga que você trouxe algo desse tipo como presente pra mim. Ah, eu tenho certeza de que você trouxe. – Ele abriu um sorriso amistoso e o Anjo Caído lhe jogou uma garrafa de Conhaque, ainda cheia. – Isso me surpreende. – E a expressão era de sincera surpresa, a surpresa de um homem muito velho com a voz de um ator experiente e o sorriso de um cantor especialmente talentoso. Tirou a tampa da garrafa e cheirou. – Essência de pecado, minha favorita. – Comentou e deu uma longa golada, longa o suficiente para parecer luxuriosa. Metade da garrafa se foi nesse processo. – A qualidade é ótima, consigo sentir todo meu ser em chamas, isso é fantástico. – Falou e tapou a garrafa. – Um presente ótimo, traga mais dez desses quando vier me visitar de novo. Coloque ela deitada naquele banco ali. Está limpo, ninguém sangrou sobre ele. Eu vou buscar um travesseiro – Disse apontando o único banco no canto ainda inteiro e virou-se, saindo sorridente com a garrafa em sua mão.
- G... Foi mal pela calça. – Disse L, em tom febril e quase delirante. – Eu te compro uma nova quando a gente voltar no centro. Você tá precisando. – Comentou, enquanto tocava no bolso esquerdo dele, o Homem Sem Nome sentiu algo movendo-se em seu estômago com aquela mão feminina ali, o Anjo Caído ignorou aquilo, sem deixar de se incomodar. – Você tem buracos no bolso... – E o dedo dela se moveu ali, inocentemente bêbado, adentrando o buraco, como se brincasse de descobrir algo novo. O frio no estômago quase o fez se dobrar, mas felizmente o barulho de passos a fez tirar a mão rapidamente e observar em direção à porta dos fundos, o Padre chegava com um par de travesseiros e um cobertor embaixo de um braço, no outro a garrafa, ainda pela metade. Silenciosamente o Anjo Caído o agradeceu.
- Então, o que traz sua excelente presença pecadora ao meu recanto para almas puras e inocentes, G? – O Padre puxou um maço velho e amassado de cigarros de algum bolso interno em sua batina desgastada, fez o mesmo com isqueiro, então puxou um cigarro tão amassado quando o pacote e o acendeu cerimoniosamente com o isqueiro que falhava. – Descobri recentemente o fumo, não é prazeroso como o sexo ou o álcool, mas ele ocupa o tempo e tira de minha mente as nuvens do medo, o que me faz lembrar que você gastou todo o tempo que eu lhe dei para começar a me responder me observando acender um cigarro. Então, o que você quer, meio-anjo? – Ele tragou, abriu a garrafa pela metade e deu um gole longo e avaliador. Suas sobrancelhas grossas desceram e seu rosto converteu-se em fúria repentina. – Diabos, garoto! Responda de uma vez ou vá embora, deixe a menina aí se quiser, não precisa se preocupar com ela, não gosto de ruivas tatuadas que bebem como um carro velho, se vai me responder responda de uma vez, pare de procurar meias palavras, rapaz, eu já vivi o suficiente para receber notícias duras, mas não sei se vou viver tempo o suficiente para ouvir sua resposta se você demorar meio século para dá-la!
- Acalme-se. – Pediu fazendo um gesto com as mãos, reforçando as palavras. – Eu vou lhe contar tudo, só é... Difícil. – Explicou isso e deu um espaço. O Padre respirou fundo e fez o mesmo gesto pra ele, como quem diz "eu já estou calmo, babaca." então se sentou e deu outra tragada e começou a beber um gole. – Eu matei um anjo. – E o gole que o Padre bebia estava no ar, junto com fumaça, ele tossia duplamente engasgado.
- Mas... – Ele tentou dizer e voltou a tossir, jogou o cigarro no chão e pisou sobre ele com raiva. – Como assim você matou um Anjo? Que tipo de Anjo? Um patrulheiro? Matar escória só traz problemas garoto, se você mata um soldado raso eles mandam um grandão te pegar, o que foi que eu te ensinei? Deixa eles falarem merda, pensar que são menos sujos que você, se eles quiserem que mijem em sua cabeça de mortal patético, você é um fruto do pecado, se um Arcanjo desce sobre nós essa cidade inteira vira cinzas, eu disse CINZAS! Não esse cinza melancólico de merda que você vê nos olhos daqueles que são iguais a você, vivendo a vida patética deles, o cinza da combustão, do pó ao pó, do nada! – Ele cuspia enquanto falava, sibilando as palavras com um sotaque forte de algum país estrangeiro, quase se embolando nos esses e erres, ressaltados. Porém percebeu que o Anjo Caído não mudou a expressão e puxou de seu bolso uma barra meio comida de chocolate, jogando para o padre. – Você não matou um verme... – Disse, olhando o chocolate que caíra impotente no chão com o baque seco que só o pecado pode fazer. A luz bateu em sua embalagem metálica e iluminou uma parte manchada de sangue seco. – O que você fez, filho, pelo amor do Pai?
- Um mensageiro, quatro asas de luz. – Apontou para as costas. – Voz irritante, arrogância, falta de experiência, habilidade em batalha zero. – Falou, e então estendeu a mão, o padre lhe jogou a garrafa e ele tomou um gole. – A noite eterna está chegando. E nós não temos mais chance de redenção. Não podemos impedi-la e o Pai parece não se importar com isso. – Tomou outro gole da bebida forte e deixou ela queimar a fúria em seu interior. – Estamos sós, Padre. A minha pergunta é: Você está conosco? – Olhou-o demoradamente, o silêncio abateu-se de forma que os sussurros do vento puderam ser ouvidos passando por entre os túmulos destruídos e os vitrais despedaçados, atingindo os bancos de madeira e a alma de cada um dos presentes, como gritos de almas desoladas e solitárias.
- Se eu estou com você... – O homem velho acendeu outro cigarro amassado com seu isqueiro que não funcionava direito. – Diabo! – Praguejou contra o mesmo e o fogo se fez, ele tragou demoradamente, dando espaço para uma reflexão silenciosa. – E por que eu estaria, criança? – Perguntou, com uma calma recém-descoberta, com placidez no olhar antes furioso. – Por quê? – Perguntou outra vez, com a mesma tranquilidade.
- Por que você vai morrer se estiver sozinho. Todos nós morreremos sós se assim ficarmos. – Falou e bebeu um gole pequeno que demorou mais que a maioria de seus goles longos, estava se dando tempo para pensar nas palavras certas. – Pois se a noite eterna vier da luz, cabe a nós que vivemos nas sombras trazer de volta um novo dia, não é? – Sorriu para ele, sem confiança, sem convicção, apenas sorria da ironia de tudo aquilo.
- "Morreremos sozinhos ou seguiremos em frente juntos" é isso? – Perguntou, tragando, seu cigarro já acabava. – Mas alguns de nós morrerão mesmo com isso, não é? Estamos falando de guerra, rapaz, você vai ver muita gente morrer quando a noite chegar e mais gente ainda morrer antes do sol poder se preparar para nascer de novo. Está pronto para essa responsabilidade, G? – Ele jogou a bituca de cigarro em meio à madeira podre e ela se ascendeu como palha. – Bom, se vamos à guerra será necessário mais que seu charme e um pouquinho de pecado para fazer um exército. Pretende recrutar a todos de um em um? Até agora você tem uma companheira cuja funcionalidade do fígado é extremamente duvidosa e um Padre que não tem igreja para rezar ou fieis para conduzir. O que nós vamos fazer, meu jovem?
- Não é óbvio? Vamos reunir pessoas de fé. – Passou a mão nos cabelos de L, ela finalmente havia dormido. – Vamos achar todos os que são como nós e uniremos eles sobre nossa bandeira, nosso desejo. – Explicou, imaginando a possível guerra.
- Oh, isso nos dá um número de, o quê, mil almas, duas mil se formos otimistas... – Avaliou a contagem de caídos dos últimos anos. – Isso se todos quiserem lutar, assim sendo são, na nossa melhor expectativa, entre covardes e fracotes, oitocentos, contra toda a horda que vem de cima e todas as divisões de criaturas sinistras que vem lá de baixo. – Ele tragou. – Mas de fato, me parece mais interessante lutar uma última vez ao invés de apenas aceitar meu destino de mortal patético e da forma como você fala até parece que podemos vencer.
- E nós podemos. – A surpresa e insegurança do padre foram palpáveis. – Não é mesmo? – Olhos vermelhos brilharam no canto da sala, uma menina chupava um pirulito olhou para os dois e sorriu de forma inocentemente maliciosa. Uma coisa que só uma criança de doze ou treze anos poderia fazer.
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