Caminho em silêncio, como aprendi a andar ao longo dos anos. Fora-me ensinado que eu não deveria fazer barulho, que eu não deveria mostrar meus talentos, que eu nunca, de forma alguma, deveria falar de minha mãe ou do dia da fogueira. É o Feriado que eles comemoram nesse país. Quando nossas "bruxas" foram queimadas. Curandeiras, parteiras, mães, irmãs e filhas. Todas arderam no mesmo fogo em prol de Agahmenonn, "o deus que a tudo limpa" é como eles o chamam, ainda posso ouvir as palavras do Padre em minha cabeça. Faz oito anos que tudo aconteceu, mas elas ressoam, como o badalar dos sinos da meia-noite.
- O fogo a tudo purifica! – Urrou com fúria legítima, ele gritava para a multidão de fieis reunidos, vestia uma armadura completa, carregava uma tocha em sua mão, maça de guerra na outra, sua barba era negra, como seus cabelos e o metal que lhe cobria, em suas costas uma capa, com o símbolo de Agahmenonn, as lanças, três delas, presas por correntes com espinhos umas as outras. Quando penso sobre isso, essa religião se espalhou rápido em nosso país. Já era colossal quando tinha nascido, porém em um mundo politeísta, como o que minha mãe vivia, lhe parecia normal adorar vários deuses e fazer seus rituais convencionais. Festas da colheita, da fartura, festivais pela fertilidade. O que mais se pode esperar de uma mãe se não que ela ensine suas filhas a fazer o mesmo? – E é com fogo que limparemos as almas dessas hereges. As bruxas que ousam falar de outros seres além de nosso deus! – A ferocidade em sua voz atestava seu ódio. Sim, tudo o que movia as pessoas ali reunidas era ódio. Não o ódio que provoca guerras, o ódio de quem guerreia contra um inimigo. O ódio de quem desconhece, um ódio nascido do medo, do horror, da ignorância. De gente inculta. O ódio de quem amola sua faca pensando se o vizinho pode ser diferente de seu ideal ridículo de mundo. O tipo de ódio que acaba com famílias, no fim, o tipo de ódio que traz a guerra, mas ele em si só é pior que o ódio de um guerreiro. – Queimem as bruxas! Queimem as bruxas! – Gritou e todos gritavam, e o fogo consumiu minha família, minhas irmãs, minhas tias, minhas vizinhas. Minha mãe. O fogo as converteu em pó e eu corri em direção a elas, e pus minhas mãos naquela pilha de madeira incandescente tentando salvá-las. Haviam dezenas de crianças, CRIANÇAS, droga! Lembrar traz lágrimas aos meus olhos.
- Você é um rapaz corajoso, filho. – Me disse o homem que me tirou dali. – Mas não muito inteligente. – Ele me arrastou, e tocou minha mão queimada, de alguma forma ele curou aquela dor, uma cicatriz ficou sobre minha mão esquerda. – Coragem e estupidez juntos geram uma morte precoce. – Aquele homem me abriu um sorriso e não fosse a fúria que eu sentia teria corado diante dele. Tinha dentre muito brancos, eu me lembro. Seus olhos eram um tom de castanho limpo, sua pele era cor de café. Ele passou a mão em meus cabelos e então me deu uma moeda, prata pura. – Criança, não faça nada que vá te matar por enquanto, eu garanto que você não pode vencê-los sozinho. Mas, existem outros como você. Outros que também perderam tudo hoje. – O homem respirou fundo, como quem vai dizer algo que é difícil de ser feito. – E você precisa liderá-los, ser para eles um exemplo.
- Por que eu? – Lembro-me de ter lucidez o suficiente para perguntar-lhe isso.
- Ninguém tem a coragem que você tem. – Bateu em meu peito com a ponta do indicador. – E o primeiro requisito para liderar a destruição de um inimigo mais poderoso é a coragem. – Então ele juntou outro dedo ao anterior. – O segundo é a cautela. – Então jogou a capa que carregava sobre meus ombros. Ainda a uso até hoje, está puída, suja e desgastada. Mas não me arrisco a vestir outra coisas. – Corajoso, porém cauteloso. Você deve seguir em frente e trazer a destruição aos seus inimigos. Você me entende?
Sim, eu entendo. E nunca irei me esquecer disso. Coragem e cautela. Movo-me em silêncio quando vejo um monstro tombar sob a espada de um guerreiro que exalava algo diferente... Ele é como eu? Pergunto-me se também tem o talento. O que eles estão fazendo?
Eles se aproximam, olhando o corpo caído ao meu lado. Quem é esse? Não reconheço seu rosto, seria difícil reconhecê-lo, já que sua face foi destruída, mas não me lembro de algum de nós se vestindo tão bem... Então... Quem? Eles estão mais perto. É hora de correr. De sair de perto deles... De...
Eles se aproximam, olhando o corpo caído ao meu lado. Quem é esse? Não reconheço seu rosto, seria difícil reconhecê-lo, já que sua face foi destruída, mas não me lembro de algum de nós se vestindo tão bem... Então... Quem? Eles estão mais perto. É hora de correr. De sair de perto deles... De...
Pedra se parte sobre meu pé e eu sinto meu corpo desabar. Um barulho que eles devem ouvir também. Droga, agora é muito tarde para fugir, se puderam matar aquele monstro o que não irão fazer comigo? Eu vou morrer, eu certamente vou morrer. O corpo morto ao meu lado se levanta e logo começa a fugir. Acho que acabo de mijar em minhas calças, droga. Tapo minha boca com as duas mãos para não gritar, mas já é tarde, um deles já está perto de mim. Grande, cabelos negros, pele que se assemelha a prata e olhos firmes. O que há com esse aspecto de guerreiro? Ele não inspira medo, ou não está tentando inspirar, apenas olha para mim. Com calma, enquanto faz sinal para os outros olharem em minha direção.
O que eles farão?
O que eles farão?
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