O frio da
noite penetrava sua jaqueta de couro como se fossem correntes envolvendo seus
braços até chegar em sua barriga e costas, retalhando sua pele, metal frio e
afiado que buscava atingir-lhe a alma. Encolheu-se e sentiu-se tremer um pouco
dentro corpo mortal e através dele. Abraçou a si mesmo e esfregou as mãos,
então trouxe-as junto ao rosto para soltar nelas um suspiro quente e
desesperado, de nada adiantou, uma lufada do vento frio e úmido da noite levou
para longe o pouco calor conseguido. Sentiu-se miserável, desejou ter um par de
luvas.
O céu
negro, sem estrelas e sem lua, observava ao Homem Sem Nome de cabelos de densa
sombra e olhos de cinza e mel, ele caminha solitário, sente o peso das asas em
suas costas, os postes iluminam sua silhueta em meio à rua molhada, um raio
corta os céus, anunciando uma possível tempestade. Está frio, frio como nada
mais poderia ser e ele sente, repentinamente o desejo pelo calor infernal do
dia, movia-se em direção ao trabalho, sempre trabalho, dia, noite, madrugada,
que diferença fazia? Era mais um dia e os dias iam se movendo como eles queriam.
Viu ao longe a Cafeteria e acelerou o passo, desejando escapar do vento e da
possível chuva.
A
Cafeteria estava aberta, era noite, ela deveria estar atendendo àquela hora, ou
assim pensou enquanto caminhava porta adentro. Couro vermelho, calor agradavelmente
familiar, um alento para quem havia andado oito quadras no frio, cheiro de
café, fumaça das fábricas e alguma coisa que está (e sempre estará) eternamente
fritando em algum lugar, a alma torturada em forma de batatas. A garçonete lhe
serve um café e lança um sorriso, o anjo caído de cabelos negros lhe retribui
com um aceno de cabeça e uma gorjeta de treze centavos. A garçonete o odeia e
ele sabe disso, os treze centavos não contribuem para a melhora dessa relação,
mas ele não se importa com isso, é melhor manter as notas de dois que traz no
bolso para pegar um ônibus de volta pra casa na manhã seguinte.
-
Novamente o problema com a luz do banheiro. – Diz o velho homem dono do lugar,
ele sua igual um porco mesmo fazendo frio como está e isso deixa o homem sem
nome um tanto assustado. O Anjo Caído tem seu nariz rubro por culpa do sangue
acumulado desesperadamente para aquecê-lo, e que mesmo assim falha em fazê-lo.
Seus traços caucasianos, seus cabelos lisos e longos que parecem estar sempre
cobrindo seus olhos hora cinza, hora mel, sempre impassíveis, seus lábios finos
e levemente ressecados formando a linha típica de quem não expressa nada, o
dono da Cafeteria não gosta dele, mas não precisa gostar. A Luz do Banheiro
sempre dá problemas e aquele rapaz de cabelos negros sempre resolve, quando não
resolve não cobra nada. Logo, nunca pagou a um eletricista de verdade, apenas
vinte mangos ao "cara-da-jaqueta-de-couro" ali presente, isso serve
bem ao Homem Sem Nome. Sem especialidade resolver problemas como aquele é a
única coisa que ele pode fazer sem deixar-se notar para os outros. – Sério, é
tão difícil assim resolver esse problema?
O Anjo
Caído de asas negras invisíveis não responde com palavras, apenas dá ao homem o
seu melhor olhar de "O que mais eu posso fazer?", dá de ombros e
segue para o banheiro com calma peculiar. Uma mulher está caída lá dentro, ela
vomita no chão, já inconsciente. Uma seringa presa ao seu braço, seus olhos
virados pra cima, debate-se uma vez, duas e parece pronta para morrer. O Homem
Sem Nome, Anjo Caído a deita de lado para que não sufoque, verifica seu pulso
para ver se ela não está morrendo de verdade, sente seu coração, observa os
arredores e então abre a terceira porta, sempre a terceira porta.
Demônios
devem ter uma fixação especial pelo número três.
Uma
criança está sentada sobre o vaso de porcelana branca e manchada de urina, ele
sabe o que ela quer vender, algo viciante, mais destrutivo que qualquer coisa
que a humana caída no chão poderia algum dia consumir, ela sabe que ele deseja
comprar, seu sorriso inocente não o engana, é uma mercadora e isso facilita as
coisas, não bastasse o azar da porta do inferno ser naquele lugar fedorento,
ter que enfrentar um feito de tinta para pegar o que queria seria deveras trabalhoso.
O demônio é uma menina, aparência de doze, talvez treze anos, entrando na
puberdade, os pequenos seios que desabrocham em seu corpo são a marca disso, o
Homem Sem Nome não gasta muito tempo olhando pra eles, não se interessa e a
garota quase parece se sentir ofendida por isso. Ela o observa através de olhos
vermelhos, com a inocência natural de um ser feito de pecado, não há nada para
esconder, sua simples presença naquele lugar denuncia o quão errado o mundo
está. Ele tira um pirulito do bolso. A menina sem nome de olhos vermelhos
estende a mão na direção do homem sem nome de asas negras, eles sabem o que
são, ela sabe o que ele quer ali, ele sabe o motivo pelo qual veio.
- Ainda é
um pouco cedo, não acha? – Seus olhos cinzentos da cor do céu diurno da cidade,
talvez por culpa da iluminação, olham para a menina. Ela dá de ombros, ele se
escora na parede na qual palavras de baixo calão, ofensas aos usuários do
espaço desgastado e mensagens para mães desavisadas estão escritas, o homem
então abre o pirulito colocando-o em sua própria boca, dando uma chupada forte
e sonora que faz um barulho estranho, quase vulgar. – Sabe.... – A menina
parece ofendida com o modo dele de chupar o pirulito, o encara com uma
intensidade sombria e mórbida e seus olhos tom de sangue parecem brilhar abaixo
da sombra das asas do Anjo Caído, ele dá um espaço de silêncio, sim, ela sabe.
– As notícias chegam rápido, afinal.
-Vocês
sempre estão mil anos à frente lá em cima, não é? – Pergunta ela, enquanto
enrola os dedos em seus próprios cabelos, criando cachos que se desfazem em
sequência com displicência infantil, tão natural que parece verdadeira, talvez
a seja. Uma mentira muito contada tende a se parecer cada vez mais com a
verdade e aquela criatura estava acostumada a mentir. – Mas você já não está
mais lá em cima. – Ela observa as asas negras ele, estende a mão tocando suas
penas que parecem feitas de sombras, o toque é demorado, quase sensual, não
fosse seu corpo de criança o Homem Sem Nome sentiria-se desconcertado, talvez ofendido,
ele observa a criatura que veio do abismo e o próprio abismo parece olhar-lhe
de volta nos olhos. – Não é?
- Não
mesmo. – Ele tira o pirulito da boca e o oferece a ela, sem mudar de expressão.
A garota abocanha o doce e então sorri, fazendo o mesmo som que ele fez antes
ao chupá-lo, o homem sem nome não esboça reação, a criança faz uma cara de
desprezo e se levanta entregando a ele uma barra mordida de chocolate. – Boa
viagem. – Dizia enquanto a garota sumia no ar, o cheiro de banheiro sujo ajuda
a esconder o enxofre, sempre enxofre, o que tinham aqueles seres contra outras
substâncias? Por que nenhum deles deixava ouro pra trás? – Até daqui a mil
anos, disse para o vazio e virou-se pronto para sair. A luz havia parado de
piscar.
A mulher
no chão se contorce, ela balança e treme como se dançasse sozinha uma dança
estranha que nem mesmo o piso contra o qual ela se bate compreendeu bem, então
se levanta de forma completamente inumana, suas pernas estão no ângulo errado
para quem quer permanecer de pé, seus braços... O que há com eles? Quatro
flashes luminosos saem de suas costas. Brilham tanto que poderiam cegar alguém.
Os olhos de mel do Anjo Caído encaram o ser diante dele, ela abre sua boca e
parece desejar falar.
- ******
******* – O som que saiu da boca da mulher foi um zunido, como uma microfonia
alta, os ouvidos dele parecem estar em combustão enquanto seu cérebro humano
lutava para se livrar da necessidade de significado das palavras, apenas para
ouvir a língua dos seres de cima, seu cérebro parece pronto para derreter
diante daquele único segundo de conversa. – Pode me entender agora, filho?
Um
tronos, um anjo mensageiro enviado pelo "pai".
- Vejo
que os andares de cima não se esqueceram de mim. – Disse, esfregando a orelha e
tocando-a com a ponta do dedo, sangrava pelos ouvidos, sua cabeça doía, seus
braços doíam, seu corpo latejava e tudo o que aquele ser fizera fora
simplesmente falar. – Que tipo de mensagens o "pai" teria para um
caído?
-
Esquecer de você? – A voz dele foi ironia, um agudo e seco riso de asco
acompanhou essa sequência de palavras. Isso surpreendeu o caído, agora os anjos
eram capazes de usar ironia, nojo eles sempre pareceram ser capazes de sentir,
mas ironia sempre lhe foi algo fora dos padrões, era uma absurda evolução ou
uma terrível decadência. – O Pai seria incapaz de esquecer você. Ele o ama.
- Diga a
ele que encontrei coisa melhor aqui embaixo... – Um tapa. A mão da mulher
possuída nem ao menos se moveu, ou não pareceu se mover, já que agora seu braço
estava torcido em um ângulo incomum para um corpo humano, impossível sem que
todos os ossos houvessem se destruído dentro do corpo. O homem sem nome foi
jogado contra a terceira porta com tanta violência que quase rachou a parede
após ela, a descarga do vazo de porcelana estava destruída.
Estava
sentado no vaso sanitário. Não tinha forças para se levantar.
- O Pai
lhe ordena que se prepare, pois o fim vem e a noite eterna cairá sobre o mundo
dos homens. – Dizia, enquanto a mulher simulava segurar algum pedaço papel, nem
mesmo lhe deixariam ver a escrita nos termos celestiais. – Podes pedir perdão
agora. Dobre teus joelhos, mortal e implore perdão ao Pai. – Havia divertimento
na voz do anjo. Mensageiros eram arrogantes, aquele especialmente arrogante,
mas onde a arrogância havia se tornado sadismo e crueldade? A mulher sangrava e
a expressão dela variava entre a pura dor e a calma celestial.
O caído
revirou os olhos, e então puxou a barra de chocolate do bolso esquerdo,
começando a comê-la.
- Sabe...
– Disse de boca cheia, entre uma mastigada e outra. – Eu adoro a ideia de
voltar a ser escravo lá em cima. – Uma pausa para que o Homem Sem Nome
engolisse seu chocolate e o Tronos engolisse a vontade de estapeá-lo novamente,
isso invariavelmente mataria a possuída. – Mas aqui é ótimo, olhe só como essa
vida é perfeita. Esse ar com cheiro de morte e podridão, essas pessoas com
olhares vazios como se suas almas houvessem sido roubadas de seus corpos, esse
mundo de desejos simplórios e estúpidos que faz com que esses seres pequenos,
insignificantes para nós, lutem diariamente por um espacinho ao sol, um
sem-número de sonhos despedaçados, incontáveis almas perdidas, pecados... É
impossível contar os pecados desse mundo, meu amigo! – Ele mordeu o chocolate e
apontou para a mão que o segurava, sua expressão era prazer puro, um deleite
pouco natural em sua face que raramente expressava algo além do tédio. – O que
mais eu poderia pedir aos céus? O Senhor, nosso pai, meu deu o Paraíso!
- Você está dizendo... Que se recusa a retornar? – Novamente aquele tom de divertimento cruel. – O quê? Gostou tanto assim desse pedaço sujo e encardido de inferno que tem vivido por todo esse tempo? Está sentindo prazer com isso. ******* ? – Seu nome de anjo. Obviamente impronunciável, apenas mais da microfonia angelical que feria os ouvido. Precisaria ouvir mais música aquela noite.
- Estou dizendo que você, o pai e todos os outros podem enfiar seu desejo de guerra, amor e canções felizes no... – Sentiu seu mundo rodar, o outro braço da humana possuída sangrava, um estalo seco do movimento indicava uma coluna partida, o Anjo sem nome cuspiu um pedaço de dente partido pelo tapa, havia sido lançado na segunda cabine, atravessando a divisória de madeira que a separava da terceira. Mordeu outra vez o chocolate. – O quê? Vocês podem fazer piadas e eu não? – Mostrou um sorriso vermelho e marrom para o mensageiro.
- Você ousa ofender novamente o senhor? – Sua voz era fúria, novamente algo novo, mesmo quando nervosos era raro ver um ser celeste expressando ira daquela forma. "Pecados..." refletiu, olhando seu sangue. – Você, um caído, ousa se referir aos andares de cima dessa forma? Saiba o seu lugar! – O corpo torcido se aproxima, ao que parece o segundo tapa custou a coluna vertebral da possuída, ela não só nunca mais iria andar, teria sorte se ainda estivesse viva quando aquilo terminasse. Não, o Anjo caído soube, já era tarde demais para aquela pessoa. Sua alma agora estava... Onde?
- Sim, sim... Eu sei... – Suas asas negras se abriam enquanto se levantava, puxou sua espada, apenas metade dela, ainda quebrada. É claro que nada poderia repará-la, nada poderia devolver-lhe seus tempos de plenitude, nada além da presença do Pai. – Você tem que me matar agora, não é? – Os olhos deles se encontram, o corpo possuído treme.
- Vai levantar tua espada contra um mensageiro do senhor? Dobre teus joelhos e estará tudo bem, eu esquecerei essa ofensa. – O corpo possuído possui olhos virados para trás, as esferas brancas parecem encará-lo em surpresa, a boca solta espuma amarelada. – Você sabe, *******, levantar sua espada contra mim é como levantar sua espada contra o próprio Pai!
- Eu não sei se eu falei isso a algum tempo... Você sabe o motivo de eu ter sido banido lá de cima, não é? – Pouco a pouco as sombras de suas asas tornavam o lugar mais sombrio. A luz do banheiro se apagou, e a única coisa que mantinha o rosto do Anjo Caído visível eram os filetes que saíam das costas partidas da possuída. – Eu, para a tristeza do pai, não sei me ajoelhar.
Luz e sombra colidem, e tudo o resta é a escuridão. Em meio às trevas estão um Homem Sem Nome de cabelos que se confundem com o cenário e uma mulher ferida de coluna partida com uma espada quebrada enfiada em seu corpo. O corpo morto queima, até que nada reste dele. A menina de olhos vermelhos está ali novamente, provavelmente assistiu toda aquela cena. Ela parece ter se divertido com o que viu, há um sorriso maquiavélico em seu rosto.
Ele pega sua espada do chão, a guarda entre as asas invisíveis, então faz um gesto para a garota, jogando pra ela o resto do chocolate. Ela joga de volta e dá um aceno de cabeça como quem diz "Vai precisar disso mais do que eu." junto à já comida há outra, talvez um presente pelo show proporcionado aquela noite. O Homem Sem Nome aceita pois sabe que realmente será necessário. A noite eterna chegava, ele ainda estava só. Mas não queria manter-se só por muito tempo.
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