quinta-feira, 10 de julho de 2014

Cartola Vermelha


Dia comum vida cotidiana em um bar qualquer, noite estrela, céu sem nuvens, uma visão clara da lua crescente. Cheiro de cigarros, música de diversas qualidades, cores e sabores ao fundo. Mulheres sentadas, cerveja, vodka e uísque falsificado de acompanhamento. Um homem de olhos castanho-madeira observa o bar, ele espera um espaço.

A cartola vermelha em sua cabeça é sua marca registrada. Não combina em nada com seu terno azul-marinho risca de giz, porém é um destaque, as moças gostam do brilho da cartola como ela não se parece com nenhum outro tecido que elas já conheceram, e talvez nunca vão conhecer. 

O homem convida-as a tocá-la a sentir em sua pele a maciez áspera desse algo impalpável existente naquela cartola, o que é aquilo? Elas olham assombradas enquanto ele brinca de fazer mágica com cartas, assombro forçado é claro, todos sabem que magia não existe e que aquilo é tudo só um truque feito com a velocidade dos dedos ágeis daquele homem. É nesses dedos que elas se interessam, ao menos um pouco.

Ele é magro, alto, tem feições quase vampirescas, porém as covas em suas bochechas e lábios curvados para cima lhe dão um ar sedutor. Seus dedos são longos e finos, pálidos como velas, suas unhas são bem cuidadas, ele tem em seu pulso um relógio de uma marca qualquer, obviamente é falsificado, uma imitação de relógio de marca em uma imitação de homem elegante. Coerente, diria uma certa moça que o conhece bem.

Ele convida uma delas a vir até sua casa, não é longe dali, só algumas quadras, por quê não? Um homem galante, de terno e gravata com aquela cartola que destoa completamente do resto de seu ser. Ele é quase discreto em suas respostas e perguntas, assim como em seu flerte, a cartola grita por atenção. Ele ri baixo, a cartola parece gargalhar. Há algo de misterioso nela, ele é apenas um pouco desinteressante demais. Porém, por que não? Estamos falando de um bom homem, ao que tudo indica, novo na vizinhança, sim, de fato, mas trabalhador e bom de se conversar, por que não tomar um vinho com ele em lugares mais solitários e talvez conhecer melhor o moço? 

É claro que moças de bem não pensam assim, a mulher que caminha ao lado dele tem vinte e dois anos, é solteira, do signo de aquário, gosta de gatos e de filmes de terror. Seu nome... Não é importante. Só precisamos saber o motivo. Motivo? Sim. O Motivo que a levou até ali, naquela noite.

Fazia uma semana que mal saia de casa. Do trabalho pro curso, do curso pra sua casa, da sala pro computador, pro banheiro e pra cozinha e nesse ciclo as amigas pensaram que a moça estivesse querendo viver em eterno isolamento e talvez desenvolvesse tendências suicidas, homicidas ou pior, antissociais. Então nossa jovem donzela de vinte e dois anos veio de sua casa até essa cidade vizinha, encher-se de qualquer bebida barata, dançar com um ou dois sujeitos ruins de conversa e sem qualquer atrativo para então poder voltar em paz para casa, dormir e comer em sua vida tranquila. Mas, de repente, como se algo chutasse sua cabeça ébria e lhe lançasse à realidade com a força de um tornado viu-se diante do homem e sua cartola vermelha.

- Oras, vejo que está sozinha... Precisa de companhia? – Vejamos que nesse ponto a moça já não gozava de suas plenas funções racionais, dada a extrema dose de... Como era o nome daquela coisa que a amiga nº1 havia trazido? "Tanto faz." pensou.

- Talvez esteja, senhor mágico. – Falou dando seu melhor sorriso de bêbada não-carente. – Por quê? Deseja se tornar meu "companheiro"?

É claro que isso saiu de forma muito menos solene e desinibida do que a moça desejou, mas foi o suficiente para fazê-lo sorrir.

- Pois... – Disse, estendendo a mão para ela. – Adoraria de fato.

Bom, eles sentaram juntos e ela bebeu ainda mais, até vomitar metade do bar e ele a chamar para sua casa, a moça carecia de recuperação e o bondoso senhor da cartola vermelha dava seu ombro quando ela tentava andar e segurava sua cabeça quando ela vomitava pela rua. Concordaremos que a moça não é exatamente a acompanhante que todos desejariam, mas era a que ele tinha. Deveria servir, além disso, ela tinha o sorriso perfeito. A noite estava linda para fazer um sacrifício.

A moça nunca mais seria vista. Nem ele, nem sua cartola vermelha.

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