Dia comum vida cotidiana em um bar qualquer, noite estrela, céu sem nuvens, uma visão clara da lua crescente. Cheiro de cigarros, música de diversas qualidades, cores e sabores ao fundo. Mulheres sentadas, cerveja, vodka e uísque falsificado de acompanhamento. Um homem de olhos castanho-madeira observa o bar, ele espera um espaço.
A cartola vermelha em sua cabeça é sua marca registrada. Não combina em nada com seu terno azul-marinho risca de giz, porém é um destaque, as moças gostam do brilho da cartola como ela não se parece com nenhum outro tecido que elas já conheceram, e talvez nunca vão conhecer.
O homem convida-as a tocá-la a sentir em sua pele a maciez áspera desse algo impalpável existente naquela cartola, o que é aquilo? Elas olham assombradas enquanto ele brinca de fazer mágica com cartas, assombro forçado é claro, todos sabem que magia não existe e que aquilo é tudo só um truque feito com a velocidade dos dedos ágeis daquele homem. É nesses dedos que elas se interessam, ao menos um pouco.
Ele é magro, alto, tem feições quase vampirescas, porém as covas em suas bochechas e lábios curvados para cima lhe dão um ar sedutor. Seus dedos são longos e finos, pálidos como velas, suas unhas são bem cuidadas, ele tem em seu pulso um relógio de uma marca qualquer, obviamente é falsificado, uma imitação de relógio de marca em uma imitação de homem elegante. Coerente, diria uma certa moça que o conhece bem.
Ele convida uma delas a vir até sua casa, não é longe dali, só algumas quadras, por quê não? Um homem galante, de terno e gravata com aquela cartola que destoa completamente do resto de seu ser. Ele é quase discreto em suas respostas e perguntas, assim como em seu flerte, a cartola grita por atenção. Ele ri baixo, a cartola parece gargalhar. Há algo de misterioso nela, ele é apenas um pouco desinteressante demais. Porém, por que não? Estamos falando de um bom homem, ao que tudo indica, novo na vizinhança, sim, de fato, mas trabalhador e bom de se conversar, por que não tomar um vinho com ele em lugares mais solitários e talvez conhecer melhor o moço?
É claro que moças de bem não pensam assim, a mulher que caminha ao lado dele tem vinte e dois anos, é solteira, do signo de aquário, gosta de gatos e de filmes de terror. Seu nome... Não é importante. Só precisamos saber o motivo. Motivo? Sim. O Motivo que a levou até ali, naquela noite.
Fazia uma semana que mal saia de casa. Do trabalho pro curso, do curso pra sua casa, da sala pro computador, pro banheiro e pra cozinha e nesse ciclo as amigas pensaram que a moça estivesse querendo viver em eterno isolamento e talvez desenvolvesse tendências suicidas, homicidas ou pior, antissociais. Então nossa jovem donzela de vinte e dois anos veio de sua casa até essa cidade vizinha, encher-se de qualquer bebida barata, dançar com um ou dois sujeitos ruins de conversa e sem qualquer atrativo para então poder voltar em paz para casa, dormir e comer em sua vida tranquila. Mas, de repente, como se algo chutasse sua cabeça ébria e lhe lançasse à realidade com a força de um tornado viu-se diante do homem e sua cartola vermelha.
- Oras, vejo que está sozinha... Precisa de companhia? – Vejamos que nesse ponto a moça já não gozava de suas plenas funções racionais, dada a extrema dose de... Como era o nome daquela coisa que a amiga nº1 havia trazido? "Tanto faz." pensou.
- Oras, vejo que está sozinha... Precisa de companhia? – Vejamos que nesse ponto a moça já não gozava de suas plenas funções racionais, dada a extrema dose de... Como era o nome daquela coisa que a amiga nº1 havia trazido? "Tanto faz." pensou.
- Talvez esteja, senhor mágico. – Falou dando seu melhor sorriso de bêbada não-carente. – Por quê? Deseja se tornar meu "companheiro"?
É claro que isso saiu de forma muito menos solene e desinibida do que a moça desejou, mas foi o suficiente para fazê-lo sorrir.
- Pois... – Disse, estendendo a mão para ela. – Adoraria de fato.
Bom, eles sentaram juntos e ela bebeu ainda mais, até vomitar metade do bar e ele a chamar para sua casa, a moça carecia de recuperação e o bondoso senhor da cartola vermelha dava seu ombro quando ela tentava andar e segurava sua cabeça quando ela vomitava pela rua. Concordaremos que a moça não é exatamente a acompanhante que todos desejariam, mas era a que ele tinha. Deveria servir, além disso, ela tinha o sorriso perfeito. A noite estava linda para fazer um sacrifício.
A moça nunca mais seria vista. Nem ele, nem sua cartola vermelha.
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