quinta-feira, 3 de julho de 2014

Crepúsculo Rubro


Sentado à beira-mar estava aquele homem, olhando o infinito azul distante do fim continental, lá estava o mar, abraçando o céu em sua fusão turquesa-celeste. Lá estava o ponto mais distante que seus olhos pouco luminosos e envelhecidos pelos anos de sal poderiam observar. O homem parecia pensar sobre muito, o vento balançava seus cabelos e sua roupa com cheiro de maresia, seus olhos de castanho-acinzentado estavam fechados em reflexão, suas sobrancelhas se comprimiam em uma expressão de dúvida e compreensão própria. Sobre o que ele pensava?

Caminhou pela areia cheia de conchas rachadas e pedras pontiagudas, não cruéis ao ponto de rasgar a pele, não gentis ao ponto de não doer pisar nelas. Eram como a sensação de ser abandonado, doloroso, frio, mas sem sangue. A areia era uma massagem gentil e o som das ondas do mar uma canção regida pelo sol poente, ele caminhava até uma casa de pescador abandonada à sombra de coqueiros velhos. Ainda se lembrava do dia em que o pai havia lhe ensinado como reparar o telhado, o coqueiro fora usado como escada.

Abriu a porta, ou melhor, encostou nela enquanto a mesma caía apodrecida, e recebeu a primeira remessa de poeira sabor madeira velha e sal. O que o tempo não tivesse feito os cupins fariam.

Caminhou pisando em ovos, pé-ante-pé, com o cuidado de uma fada ladra de dentes, com a sensibilidade de um ladino ladrão de joias. Pisava nas partes firmes da madeira e torcia para que outra parte não estivesse podre fazendo-o desabar. Com sorte e esforço chegou até o quarto velho, onde uma cama velha e corroída tinha seu colchão revirado, marcas de sangue estavam por todos os lados, lutaram ali dentro. Ninguém encontrou o compartimento secreto que ficava embaixo do baú destruído. Era a madeira menos envelhecida, sinal de que tinha qualidade maior.

Abriu-o, pegando de dentro o manto de eterno negro, à suas costas um leão com asas desenhado em prata fina e reluzente. Enrolou a capa e colocou-a em sua velha sacola de viagem. Abriu a janela apodrecida para ver o lado de fora quando o céu e o mar se tingiam de vermelho vivo, como sangue, o sol estava se pondo enquanto o caos voltava ao mundo.

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