Em meus quinze anos de idade eu tive algumas poucas
aventuras, ou assim pode se dizer, são as coisas que realmente marcaram o ano
que dividiu mares em minha adolescência, saindo de meus quatorze anos onde nada
demais havia ocorrido (exceto talvez a primeira vez que uma menina me cantou)
desses poucos fatos relevantes valem ser ressaltados os seguintes: Torci o
tornozelo direito duas vezes (que merda), uma jogando vôlei, a outra caminhando
na rua e tropeçando (que merda²); Corri na chuva por uma namorada (que merda³),
levei meu primeiro (e pior, mais sombrio, doloroso e porra, foda-se) corno (que
merda x4). Mas, bom, isso não é exatamente relevante, o que é importante saber
é que namorei as duas meninas, elas tomavam remédios controlados.
Porra, eu não sabia, é uma droga, não direi que
sinto muito, as moças não têm culpa no caso, muito menos eu, foi bacana no
começo, e no fim nem sempre as coisas terminavam bem, mas fazer o quê, né?
Chamo as gurias pra sair, elas aceitam (uma
felicidade única, admito) vamos ao bar onde as coisas são viáveis para mim,
minhas acompanhantes me bebem uma cerveja e começam a rir histericamente de
todas as minhas piadas.
"Puta merda, sou o melhor comediante do
mundo" Penso eu na primeira vez
"Puta merda, de novo!" Penso eu na
segunda.
"Sexo fácil hoje" Penso eu na primeira
vez (Ah, a inocência adolescente).
"Vou levar ela pra caminhar, e assim ela chora
ao meu lado. Vai ver o problema dela pode ser resolvido" Penso na segunda,
já sabendo da tempestade que viria. Experiência duramente adquirida.
Chego no “motel” (quartinho dos fundos da pousada
da família de um amigo meu, “altos abates” /nós chamávamos assim, sinto muito,
é horrível, eu sei. Safadeza pura rolando ali quase todas as noites, uns cinco
sujeitos usavam o lugar, e bom, vamos lá “abater” a moça ébria e deveras
animada com minha companhia) com a primeira e dançante dama. Tiro a roupa dela,
no meio das preliminares a guria começa a chorar, até hoje me lembro disso, até
hoje me lembro da sensação que não ter CHÃO.
"Fodeu, o que eu fiz? Ela me odeia! Puta que
pariu! O que tem de errado? Eu mordi com força demais? Caralho, porra, cu,
xana, pelos pentelhos depilados de Vivi, para de chorar, caralho!" Pensei,
no auge do meu desespero
adolescente-sexualmente-ativo-insanamente-desejante-do-corpo-da-moça.
"Rodrigo..." Murmurou ela aos soluços.
"Meu... quem é Rodrigo, porra?" Perguntei,
e sim, minha voz pareceu a do capitão Nascimento adolescente e ébrio.
"Meu namorado. Ex... Morreu, faz dois anos, e
ele vive aparecendo nos meus sonhos e conversa comigo, fala pra eu ir encontrar
com ele."
"CARALHO!" Pensou meu adolescente e
desesperado eu, naquele momento. "A guria é esquizofrênica... Ok, ela vai
me matar, me depilar, me estuprar e então roubar meus órgãos, beleza, EU!
Parabéns!"
"Eu deveria apenas ter morrido com ele, foi
por que a gente brigou que ele morreu. É minha culpa, tudo minha culpa! (chora
descontroladamente)."
Noite adentro e lá está o rapaz moreno sentado (ainda
nu e ereto) na cama, com a cabeça da guria no colo, fazendo carinho nela. Quase,
sim, apenas quase, irritado com a cena, estava com pena demais dela para se
sentir totalmente furioso, quase, sim, apenas quase, solidário à causa da moça,
pois estava PUTO demais pra se sentir completamente sensível ao sofrimento da desgraçada
pobre coitada, então acariciava seus cabelos e a ouvia lamuriar-se sobre o falecido
Rodrigo... Por longas e sofríveis duas horas e meia.
Pobre rapaz o tal Rodrigo, 19 anos, estudando
medicina, filho de família bem dotada financeiramente, simpático, primeira
transa e primeiro beijo da nossa adorável protagonista, era de peixes, gostava
de ver o pôr-do-sol, de caminhar na praia, de cantar Nando Reis, de Titãs, de
sexo ao ar livre e de boquetes de adolescentes inexperientes que nem sempre
eram sua namorada da época. Gente finíssima o finado, atiraria nele se fosse
capaz.
O defunto, morto há dois anos, faria vinte e um
anos em duas semanas da data na época, e meu jovem eu marcou mentalmente aquele
dia para ir poder mijar na cova do filho da puta, sobre as flores da família,
cuspir e (talvez) cagar sobre o local onde deveria ficar sua cabeça, uma
vingança singela pela noite perdida, oras, por que não? Obviamente tal vingança
nunca foi realizada, felicito-me, uma semana depois um rapaz foi preso por
invadir o cemitério á noite como eu pretendia.
Bom, a moça deitada sobre meu colo decide que já me
encheu demais com “histórias de gente morta". "Obrigado, filha da
puta" pensou meu eu da época, um tanto revoltado por ela só ter percebido
isso agora, mas perdoemos: ela estava bêbada, então ela vai ao banheiro, vomita
a porra toda com vinho barato(mais do que eu sabia que podia pagar, mas a moça,
gentilmente, ofereceu-se para repartir a conta) cerveja ruim(Bavária, sim, era
o que tinha, desculpa) e carne seca e uma massa colenta, quase gosmenta e
semenforme (acabo de inventar essa palavra) de aipim do escondidinho de R$
15,99 de nossa fantástica noite no boteco mais viável para meu falido e
adolescente eu.
Não que eu seja exatamente mais rico hoje, mas na
época eu era um sujeito deveras fodido, na real “Muito fodido” era pouco,
quando eu comprava um pastel de dois reais na escola eu me sentia o Bill Gates
andando no meio da galera com meu queijo duro e (provavelmente) reaproveitado
de outros seis pasteis não comidos por completo e deixados no pratinho em cima
do balcão. Perdoemos o meu jovem rapaz: não trabalhava e bom, mesmo sendo
gordinho me sentia mal pedindo dinheiro ao meu pai pra comer na escola (até por
que quase nunca comia) então juntava o troco de tudo o que eu comprava até ter
dinheiro o suficiente pra transar com alguém. (O que implicava ter dinheiro pra
comprar um pacote de camisinha e o fabuloso escondidinho de R$ 15,99 do
barzinho mais em conta.) o que significava que quase nunca eu tinha dinheiro
pra merda nenhuma, em lugar nenhum, andava mais relento que o Nando Reis
pós-titãs.
Bom, depois de observar o estrago que a moça fez
(sentir pena, ok, muito pouca, admito, do pessoal que limparia aquilo) e me
esforçar para não vomitar também, resolvi que seria digno de minha cavalheresca
pessoa, como bom guerreiro natural que era, com minha ereção massiva ainda
desejando extravasar na calça, deixar nossa humilde e carinhosa dama em casa.
Caminhemos, dois quilômetros e meio, pois taxi?
Quem paga quarenta reais por 2,5km? Tá louco? Lembremos, eu era MUITO fodido,
então vamos gastar a sola do allstar tamanho 42 de 40 “real”, já quase furando,
rasgado nas laterais, com cadarço quase marrom e não mais branco, e deixar a
inocente dama, com hálito de escondidinho, vinho e antidepressivos mal
processados, pois bem... Não quero ser assassinado em um beco pela descortesia
de comer a filha de alguém e nem mesmo deixar a desgraçada em casa (mesmo não
tendo feito nada, e, obviamente, odiando minha vida naquele momento).
"Uma hora da manhã... Isso são horas?"
Perguntou o pai, policial federal, com a arma na
cintura, com um olhar que fez o meu eu da época (e faria o meu eu atual)
trancar a porta do toba, por que não? Disfarcei minha súbita vontade de urinar
(acompanhada pela ainda volumosa ereção) com minha blusa de frio apertando a
cintura, erro estúpido, isso só aumentou minha vontade de ir ao banheiro e
chamou a atenção para minha calça. O notável (tá, nem tanto) volume estava ali,
e o policlal encarou demoradamente meu josefrâncio (nome carinhoso que dei ao
meu órgão viril na época), pensei que ele ia dizer "deixa eu chupar, se
tiver com gosto de escondidinho você morre!" mas ao invés disso ele me
falou "eu conheço seu pai" ótima forma de dizer "eu sei onde
você mora, babaca.", o que não diminuiu minha vontade de mijar.
"Ela bebeu muito?"
Perguntou-me o homem, encarando com olhos que
avaliavam minha posição hetero-viríl-ocidental-brasileiro-moreno-com-cabelo-moicano-e-cavanhaque,
não pareceu gostar do que viu (seja lá o que tenha visto) em minha cara, pois
deu aquela torcida de nariz fantástica, e eu fazia aquela semi-dança (sabe,
passar o peso de uma perna pra outra, quase sutilmente) de quem quer MUITO ir ao
banheiro/sair correndo.
"Não, senhor." respondi. E porra, onde eu
arrumei essa coragem? De onde diabos saiu aquele “senhor” ele não era o rei de
Esparta, era só um policial à paisana DOIDO pra me comer vivo das piores formas
possíveis. Do nada, sim, veio do “nada” essa “coragem”, mais tirada do cu que o
cosmo do Seiya.
"Você tomou seu remédio hoje?" Ele
encarou a menina pela primeira vez na noite e eu, juro, percebi pela primeira
vez que ela ainda estava ali, antes existiam apenas eu, minha vergonhosa ereção,
minha vontade colossal de colocar o Josefrâncio pra fora e mijar na arma do
policial, na esperança de que isso desarmasse a mesma, e, óbvio, o cara de
2.10m, 105kg, negro, armado, mais rápido, mais forte, com o pau provavelmente
maior que o meu, e claro, muito mais bem provido de armamentos que eu. O que me
deixou incapacitado de compreender que AINDA existia outro alguém ali.
O cara
executou uma série de perguntas à guria que, mesmo perturbada, semi-bêbada,
vomitada, quase drogada pelo remédio misturado ao álcool, e viajando por
dimensões paralelas enquanto fingia dançar uma música inaudível, conseguiu
responder que eu não havia feito "nada demais" só havíamos
"conversado e curtido a noite, e então rolou o vômito, então ele me trouxe
em casa".
"Obrigado,
filha da puta, não me fodeu da forma boa, pelo menos não me fodeu da forma ruim
também!" Gritou o meu jovem eu dentro de sua complexa existência lotada de
hormônios. Lembremos: Eu era adolescente, bonito (Ok, nem tanto), descolado (ou
quase) e potencialmente babaca. justificável? Sim. É comum que adolescentes
sejam uns babacas, ande na rua e encontrará cem rapazes que foram completamente
babacas hoje o dia inteiro e nem ao menos se deram conta disso, perceber que
fui um babaca não torna minhas atitudes da época mais legais, nem justificáveis,
mas vendo desse ponto ao menos posso rir de minha própria estupidez
autoconfiante.
Então a moçoila entrou, o pai ficou me
olhando até eu virar a esquina, sentia seus olhos em minhas costas e perguntei
se ele estava me encarando daquele jeito por que sabia que eu havia feito algo
com sua filha ou por achar minha bunda (a qual sempre foi elogiada) um pedaço de
toucinho agradável. Quase (apenas, quase) corri os últimos dez metros: Estava
desesperado o suficiente pra isso, estava com vontade de ir ao banheiro o
suficiente pra isso. Quase (apenas quase) virei e falei “chupa meu pau, babaca,
chupei sua filha com a força de um aspirador marciano!”, isso provavelmente
teria me matado, mas meu eu da época cogitou que a ideia valia à pena. Quase (apenas...
ah, você entendeu!) fiz tudo isso, não exatamente nessa ordem, mas tive medo
demais do cara começar a atirar em mim com a arma que ele tinha na cintura pra
isso, então após virar a esquina (e conferir que o negro maravilhoso não me
seguia para me exterminar) parei ali e mijei durante exatos quarenta segundos,
lavei a calçada com urina semi-transparente e com cheiro de Bavária. Puta que
pariu, melhor mijada.
Uma semana depois eu e a garota
começamos a namorar.
O pai dela me adora, até hoje me chama
pros churrascos da família.