sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Remédios Controlados

Em meus quinze anos de idade eu tive algumas poucas aventuras, ou assim pode se dizer, são as coisas que realmente marcaram o ano que dividiu mares em minha adolescência, saindo de meus quatorze anos onde nada demais havia ocorrido (exceto talvez a primeira vez que uma menina me cantou) desses poucos fatos relevantes valem ser ressaltados os seguintes: Torci o tornozelo direito duas vezes (que merda), uma jogando vôlei, a outra caminhando na rua e tropeçando (que merda²); Corri na chuva por uma namorada (que merda³), levei meu primeiro (e pior, mais sombrio, doloroso e porra, foda-se) corno (que merda x4). Mas, bom, isso não é exatamente relevante, o que é importante saber é que namorei as duas meninas, elas tomavam remédios controlados.

Porra, eu não sabia, é uma droga, não direi que sinto muito, as moças não têm culpa no caso, muito menos eu, foi bacana no começo, e no fim nem sempre as coisas terminavam bem, mas fazer o quê, né?
Chamo as gurias pra sair, elas aceitam (uma felicidade única, admito) vamos ao bar onde as coisas são viáveis para mim, minhas acompanhantes me bebem uma cerveja e começam a rir histericamente de todas as minhas piadas.

"Puta merda, sou o melhor comediante do mundo" Penso eu na primeira vez 

"Puta merda, de novo!" Penso eu na segunda.

"Sexo fácil hoje" Penso eu na primeira vez (Ah, a inocência adolescente).

"Vou levar ela pra caminhar, e assim ela chora ao meu lado. Vai ver o problema dela pode ser resolvido" Penso na segunda, já sabendo da tempestade que viria. Experiência duramente adquirida.

Chego no “motel” (quartinho dos fundos da pousada da família de um amigo meu, “altos abates” /nós chamávamos assim, sinto muito, é horrível, eu sei. Safadeza pura rolando ali quase todas as noites, uns cinco sujeitos usavam o lugar, e bom, vamos lá “abater” a moça ébria e deveras animada com minha companhia) com a primeira e dançante dama. Tiro a roupa dela, no meio das preliminares a guria começa a chorar, até hoje me lembro disso, até hoje me lembro da sensação que não ter CHÃO.

"Fodeu, o que eu fiz? Ela me odeia! Puta que pariu! O que tem de errado? Eu mordi com força demais? Caralho, porra, cu, xana, pelos pentelhos depilados de Vivi, para de chorar, caralho!" Pensei, no auge do meu desespero adolescente-sexualmente-ativo-insanamente-desejante-do-corpo-da-moça.

"Rodrigo..." Murmurou ela aos soluços.

"Meu... quem é Rodrigo, porra?" Perguntei, e sim, minha voz pareceu a do capitão Nascimento adolescente e ébrio.

"Meu namorado. Ex... Morreu, faz dois anos, e ele vive aparecendo nos meus sonhos e conversa comigo, fala pra eu ir encontrar com ele."

"CARALHO!" Pensou meu adolescente e desesperado eu, naquele momento. "A guria é esquizofrênica... Ok, ela vai me matar, me depilar, me estuprar e então roubar meus órgãos, beleza, EU! Parabéns!"

"Eu deveria apenas ter morrido com ele, foi por que a gente brigou que ele morreu. É minha culpa, tudo minha culpa! (chora descontroladamente)."

Noite adentro e lá está o rapaz moreno sentado (ainda nu e ereto) na cama, com a cabeça da guria no colo, fazendo carinho nela. Quase, sim, apenas quase, irritado com a cena, estava com pena demais dela para se sentir totalmente furioso, quase, sim, apenas quase, solidário à causa da moça, pois estava PUTO demais pra se sentir completamente sensível ao sofrimento da desgraçada pobre coitada, então acariciava seus cabelos e a ouvia lamuriar-se sobre o falecido Rodrigo... Por longas e sofríveis duas horas e meia.
Pobre rapaz o tal Rodrigo, 19 anos, estudando medicina, filho de família bem dotada financeiramente, simpático, primeira transa e primeiro beijo da nossa adorável protagonista, era de peixes, gostava de ver o pôr-do-sol, de caminhar na praia, de cantar Nando Reis, de Titãs, de sexo ao ar livre e de boquetes de adolescentes inexperientes que nem sempre eram sua namorada da época. Gente finíssima o finado, atiraria nele se fosse capaz.

O defunto, morto há dois anos, faria vinte e um anos em duas semanas da data na época, e meu jovem eu marcou mentalmente aquele dia para ir poder mijar na cova do filho da puta, sobre as flores da família, cuspir e (talvez) cagar sobre o local onde deveria ficar sua cabeça, uma vingança singela pela noite perdida, oras, por que não? Obviamente tal vingança nunca foi realizada, felicito-me, uma semana depois um rapaz foi preso por invadir o cemitério á noite como eu pretendia.

Bom, a moça deitada sobre meu colo decide que já me encheu demais com “histórias de gente morta". "Obrigado, filha da puta" pensou meu eu da época, um tanto revoltado por ela só ter percebido isso agora, mas perdoemos: ela estava bêbada, então ela vai ao banheiro, vomita a porra toda com vinho barato(mais do que eu sabia que podia pagar, mas a moça, gentilmente, ofereceu-se para repartir a conta) cerveja ruim(Bavária, sim, era o que tinha, desculpa) e carne seca e uma massa colenta, quase gosmenta e semenforme (acabo de inventar essa palavra) de aipim do escondidinho de R$ 15,99 de nossa fantástica noite no boteco mais viável para meu falido e adolescente eu.

Não que eu seja exatamente mais rico hoje, mas na época eu era um sujeito deveras fodido, na real “Muito fodido” era pouco, quando eu comprava um pastel de dois reais na escola eu me sentia o Bill Gates andando no meio da galera com meu queijo duro e (provavelmente) reaproveitado de outros seis pasteis não comidos por completo e deixados no pratinho em cima do balcão. Perdoemos o meu jovem rapaz: não trabalhava e bom, mesmo sendo gordinho me sentia mal pedindo dinheiro ao meu pai pra comer na escola (até por que quase nunca comia) então juntava o troco de tudo o que eu comprava até ter dinheiro o suficiente pra transar com alguém. (O que implicava ter dinheiro pra comprar um pacote de camisinha e o fabuloso escondidinho de R$ 15,99 do barzinho mais em conta.) o que significava que quase nunca eu tinha dinheiro pra merda nenhuma, em lugar nenhum, andava mais relento que o Nando Reis pós-titãs.

Bom, depois de observar o estrago que a moça fez (sentir pena, ok, muito pouca, admito, do pessoal que limparia aquilo) e me esforçar para não vomitar também, resolvi que seria digno de minha cavalheresca pessoa, como bom guerreiro natural que era, com minha ereção massiva ainda desejando extravasar na calça, deixar nossa humilde e carinhosa dama em casa.

Caminhemos, dois quilômetros e meio, pois taxi? Quem paga quarenta reais por 2,5km? Tá louco? Lembremos, eu era MUITO fodido, então vamos gastar a sola do allstar tamanho 42 de 40 “real”, já quase furando, rasgado nas laterais, com cadarço quase marrom e não mais branco, e deixar a inocente dama, com hálito de escondidinho, vinho e antidepressivos mal processados, pois bem... Não quero ser assassinado em um beco pela descortesia de comer a filha de alguém e nem mesmo deixar a desgraçada em casa (mesmo não tendo feito nada, e, obviamente, odiando minha vida naquele momento).

"Uma hora da manhã... Isso são horas?"

Perguntou o pai, policial federal, com a arma na cintura, com um olhar que fez o meu eu da época (e faria o meu eu atual) trancar a porta do toba, por que não? Disfarcei minha súbita vontade de urinar (acompanhada pela ainda volumosa ereção) com minha blusa de frio apertando a cintura, erro estúpido, isso só aumentou minha vontade de ir ao banheiro e chamou a atenção para minha calça. O notável (tá, nem tanto) volume estava ali, e o policlal encarou demoradamente meu josefrâncio (nome carinhoso que dei ao meu órgão viril na época), pensei que ele ia dizer "deixa eu chupar, se tiver com gosto de escondidinho você morre!" mas ao invés disso ele me falou "eu conheço seu pai" ótima forma de dizer "eu sei onde você mora, babaca.", o que não diminuiu minha vontade de mijar.

"Ela bebeu muito?"

Perguntou-me o homem, encarando com olhos que avaliavam minha posição hetero-viríl-ocidental-brasileiro-moreno-com-cabelo-moicano-e-cavanhaque, não pareceu gostar do que viu (seja lá o que tenha visto) em minha cara, pois deu aquela torcida de nariz fantástica, e eu fazia aquela semi-dança (sabe, passar o peso de uma perna pra outra, quase sutilmente) de quem quer MUITO ir ao banheiro/sair correndo.

"Não, senhor." respondi. E porra, onde eu arrumei essa coragem? De onde diabos saiu aquele “senhor” ele não era o rei de Esparta, era só um policial à paisana DOIDO pra me comer vivo das piores formas possíveis. Do nada, sim, veio do “nada” essa “coragem”, mais tirada do cu que o cosmo do Seiya.

"Você tomou seu remédio hoje?" Ele encarou a menina pela primeira vez na noite e eu, juro, percebi pela primeira vez que ela ainda estava ali, antes existiam apenas eu, minha vergonhosa ereção, minha vontade colossal de colocar o Josefrâncio pra fora e mijar na arma do policial, na esperança de que isso desarmasse a mesma, e, óbvio, o cara de 2.10m, 105kg, negro, armado, mais rápido, mais forte, com o pau provavelmente maior que o meu, e claro, muito mais bem provido de armamentos que eu. O que me deixou incapacitado de compreender que AINDA existia outro alguém ali.

O cara executou uma série de perguntas à guria que, mesmo perturbada, semi-bêbada, vomitada, quase drogada pelo remédio misturado ao álcool, e viajando por dimensões paralelas enquanto fingia dançar uma música inaudível, conseguiu responder que eu não havia feito "nada demais" só havíamos "conversado e curtido a noite, e então rolou o vômito, então ele me trouxe em casa".

"Obrigado, filha da puta, não me fodeu da forma boa, pelo menos não me fodeu da forma ruim também!" Gritou o meu jovem eu dentro de sua complexa existência lotada de hormônios. Lembremos: Eu era adolescente, bonito (Ok, nem tanto), descolado (ou quase) e potencialmente babaca. justificável? Sim. É comum que adolescentes sejam uns babacas, ande na rua e encontrará cem rapazes que foram completamente babacas hoje o dia inteiro e nem ao menos se deram conta disso, perceber que fui um babaca não torna minhas atitudes da época mais legais, nem justificáveis, mas vendo desse ponto ao menos posso rir de minha própria estupidez autoconfiante.

Então a moçoila entrou, o pai ficou me olhando até eu virar a esquina, sentia seus olhos em minhas costas e perguntei se ele estava me encarando daquele jeito por que sabia que eu havia feito algo com sua filha ou por achar minha bunda (a qual sempre foi elogiada) um pedaço de toucinho agradável. Quase (apenas, quase) corri os últimos dez metros: Estava desesperado o suficiente pra isso, estava com vontade de ir ao banheiro o suficiente pra isso. Quase (apenas quase) virei e falei “chupa meu pau, babaca, chupei sua filha com a força de um aspirador marciano!”, isso provavelmente teria me matado, mas meu eu da época cogitou que a ideia valia à pena. Quase (apenas... ah, você entendeu!) fiz tudo isso, não exatamente nessa ordem, mas tive medo demais do cara começar a atirar em mim com a arma que ele tinha na cintura pra isso, então após virar a esquina (e conferir que o negro maravilhoso não me seguia para me exterminar) parei ali e mijei durante exatos quarenta segundos, lavei a calçada com urina semi-transparente e com cheiro de Bavária. Puta que pariu, melhor mijada.

Uma semana depois eu e a garota começamos a namorar.

O pai dela me adora, até hoje me chama pros churrascos da família.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O Amuleto Herege



A manhã veio com chuva e Dan praguejou algo na língua dos dragões enquanto levantava-se para arrastar Pollux para baixo de uma árvore, o ferimento feito pela flecha era feio, mas a magia de Lidda havia evitado o pior, assim o mago sobrevivia, respirando com dificuldades. “Três dias assim e ele morrerá... Precisamos voltar à vila.” Pensou, observando o companheiro ferido. Coçou a lateral da cabeça, deixou seus olhos procurarem as coisas, fazia duas noites que não tinha descanso, seu corpo implorava por uma cama de palha e comida de verdade e a chuva matinal apenas servia para aniquilar aquilo que sobrara de seu ânimo, com isso estava mal-humorado, cansado e suas costas doíam da pancada recebida na noite anterior.
Levantou-se para observar Jacket procurando algo entre os corpos mortos. O lâmina do crepúsculo revirava as criaturas de um lado pro outro, em sua mente pouco racional, por culpa dos efeitos mágicos daquele lugar, encontrar coisas brilhantes poderia ser algo interessante, até mesmo divertido. Não se lembrava da noção de dinheiro, valor, ou ouro, mas do prazer de ter a bolsa pesada com coisas brilhantes dentro. Isso era comum, instintivo nos homens gananciosos como era o guerreiro arcano. Assim sendo procurava em meio às carcaças já apodrecidas dos seres da noite, e em meio à lama eternamente fresca daquele lugar encontrou algo.

O colar era prata brilhante, destacado, belo. Detalhado com asas de um anjo que segurava uma espada em uma mão, na outra algo como a luz do sol. Atrás dele castelos caiam destruídos e ao observar no fundo daquele relevo prateado tão detalhado pode ver que as escrituras se moviam, pôde ver as pessoas correndo, as guerras acontecendo, o medo, a dor e o terror das pessoas ao tentar fugir do alcance do ser que os atacava. Sentiu-se ser devorado, tragado para dentro daquele caos de destruição infinita, morte e dor. Sentiu seu braço enfraquecendo, sentiu fome e por instinto soube que aquilo era maligno. Então olhou ao redor e viu Pollux encostado numa árvore.

Nas memórias da mente ainda animalizada de Jacket o mago era alguém que gostava de forças sombrias, sentia-se atraído por elas, e passou pela sua cabeça que talvez, apenas talvez, o mago pudesse se sentir interessado por aquele colar. Somando isso à sua necessidade de se livrar do encantamento maligno que fazia seu membro superior doer o guerreiro arremessou o objeto prateado contra o arcanista desmaiado.
Pollux tremeu uma vez, grunhiu e então sua pele converteu-se em um tom pálido como osso. Seu coração parou de bater, sua mente parou de funcionar e ele morreu. Por fim seu corpo lentamente começou a tornar-se negro, sombras feitas de trevas, sua carne ardia, seus ossos rachavam e ele abriu os olhos, gritando de dor, seu grito foi breve, seco e então sua voz morreu.
O mago caiu em sono profundo em seguida e sonhou.

Acima das nuvens tudo era pequeno, ínfimo, cansativo, todos esses seres insignificantes, todas essas existências sem significado, cada uma delas, formigas caminhando sobre o nada, sobre essa esfera de poeira e água, chorando suas pequenas mortes, lutando suas pequenas guerras, qual o sentido dessa criação? Eu perguntei aos sete pais. Os criadores de tudo, aqueles que existem para não morrer, os deuses acima dos deuses, os pais dos pais. 

E eles riram de mim.

Não compreendi, não entendi, por que riram? Por que se divertiram com minha dúvida? Oras! Entendo que é incomum que um ser como eu não compreenda algo, mas é necessário esse escárnio? Qual o sentido desse desprezo? Por que me odiavam os criadores? Por que me viam tão ridiculamente pequeno ao ponto de me apontar o dedo e rir? Então a voz dos sete ecoou em minha mente, era assim que falavam, era assim que riam, de modo que pudessem ser ouvidos mesmo que desejássemos não escutá-los.
- Quer tanto assim compreender qual o sentido da mortalidade, Arthan? – Perguntaram-me, oras, é claro que eu desejava compreender a mortalidade, qual o significado de ser pequeno e finito num mundo de existências inacabáveis. Qual a lógica disso? – Então te daremos esse poder. – Riram novamente as sete vozes. – Tu agora existirás eternamente entre os mortais, não como o observador celeste, mas como parte deles. – A dor de ser rasgado em sete, suas mãos puxavam minha carne, separando-a de meus ossos, era insana demais essa dor, eu nunca pensei que sentiria algo assim, e agora sentia. – Vá, imortal, e compreenda os prazeres da mortalidade, morra infinitamente, até que lhe juntem as sete partes. Vá, imortal, e compreenda o desejo da carne, sem nunca viver por completo, apenas coexistindo na mente daqueles que lhe julgam uma espécie de divindade. Vá, observador do infinito e nos dê alguma diversão.

***

Pollux acordou, e sentiu algo estranho em seus membros, seus companheiros lhe olhavam surpresos, não podia compreender, por que tudo estava tão escuro, por que todos eles eram apenas espectros de energia reconhecíveis, não pode entender por que não conseguia se mover, então ouviu sua própria voz falando e percebeu que não era ele a falar.

- Eu sou Arthan, o Observador do Infinito. Sinto que fui colocado dentro de um ser com poder arcano, devo crer um mago. Estarei tomando este corpo para cumprir meu dever. – Pollux gritou em sua própria mente, sentindo-se pequeno, excluído. Viu Dan falar algo que ele não ouviu. Mas a resposta o fez quase poder adivinhar a pergunta. – Eu sou um ser além de sua insignificante compreensão mortal, meu poder transcende em muito o seu, e a ira divina de minha espada irá recair sobre aqueles que tentarem se interpor em meu caminho. – Pollux novamente gritou e sentiu sua mão tocar sua face. – Cale-se, mortal.

- Não! – Ele disse à criatura, e quando percebeu ela estava diante de si, era seu corpo, inclusive a perna arrancada. Às suas costas um par de asas negras, a carne de seus braços desaparecia deixando apenas os ossos envoltos em uma manta de pura energia arcana, seus olhos emanavam poder, cegos a toda e qualquer luz, e seu rosto tivera a carne consumida até chegar no rosto onde antes virava seu nariz e seu lábio superior, dando-lhe o aspecto de um cavalheiro da morte. – O corpo é meu, eu não irei permitir que o controle como bem quiser, não importa o que você é! – Disse à criatura no auge de sua coragem, encarou-a no fundo de suas órbitas brancas e leitosas

- Não? – Perguntou o monstro, erguendo sua espada. – Ousa se opor à minha vontade? – perguntou, e havia diversão no lugar de fúria em sua voz.

- Você não entendeu, criatura. – Disse o mago, apontando sua mão na direção dele, enquanto uma esfera de energia ali se formava. – Você está dentro da MINHA mente, querendo tomar MEU corpo. Tudo neste ambiente pertence a mim, você não será diferente. – A onda de poder atingiu a criatura e Arthan riu, porém sentiu-se enfraquecido, era estranho, não deveria estar tão fraco àquele ponto, seria isso reflexo do corpo estar rejeitando-o? O que era aquela criança para isso? Como alguém poderia apenas negar sua presença daquela forma? Isso o divertiu, pois nunca havia sido desafiado antes e agora o era por um ser que deveria ser infinitamente inferior ao seu nível.

- Eu aceitarei seu desafio, mortal. – Disse, percebendo que seu braço desaparecia. – Divirta-me! – Sua espada se moveu, e parte do corpo de Pollux foi carregada com aquele movimento, do lado de fora Daniel e os outros gritavam algo, Pollux não ouviu, não conseguia ouvir. – Lute comigo, mortal! Lute com todo seu poder! Mostre-me que é senhor desse mundo insignificante que você chama de mente! – Gritava, enquanto partia para atacá-lo.

- Eu já lhe falei. Este lugar é minha mente. – Corrente subiam do chão agarrando a criatura, Arthan olhou para aquilo surpreso. – Agora retorne às profundezas e descanse, criatura. Volte daqui mil anos, quando seu poder for suficiente para fazer frente à minha vontade. – Falou, seus olhos se abriram do lado de fora, repentinamente ciente de tudo que o cercava, Pollux vomitou, seus sentidos estavam estranhamente superiores aos anteriores, sua mente funcionava plenamente.

- Quinze dias. – Disse um sussurro do ser que habitava seu interior. – Você tem quinze dias para encontrar uma forma de me tirar de seu interior, mortal.

- Pollux. – Falou para si mesmo. – Meu nome é Pollux, seu merda. – Disse, cuspindo no chão.

- Nenhum dos anteriores durou mais que quinze dias, mortal. – Ele riu. – Viva mais que isso e eu talvez faça algum esforço para me lembrar de seu nome. Mas duvido que alguém como você consiga. Deveria apenas me dar o controle de seu corpo e me deixar lutar por mim mesmo, seria muito mais fácil.

- Nunca. – Respondeu o mago, olhou suas mãos e elas estavam completamente negras, tocou sua face e sentiu seu rosto no lugar, sua perna ainda era a de madeira tosca e de difícil mobilidade de sempre, mas ao menos isso confirmava que estava de novo em seu corpo. Isso indicava que precisava seguir em frente. “Sete pedaços” pensou o mago. “Se eu reunir os sete pedaços me livro dele... Se reunir os sete pedaços eu volto a viver...” Falou, colocando a mão sobre seu coração que não mais batia. Daniel tocou seu ombro, não pode vê-lo, mas pode reconhecer que o era pela aura prateada e dracônica dele.

- Está bem? – Perguntou, sua voz denotava preocupação, sentiu o mundo balançar de forma sombria ao redor daquele guerreiro, viu ferimentos, dor, um passado difícil de fome, de fogo, de salvamento por parte de um dragão de prata. – Pollux?

- Estou bem, Dan. – Disse, levantando-se. – Eu preciso de água, preciso de descanso, e acho que uma ou duas prostitutas viriam bem a calhar. – Falou girando sua visão ao redor, não sabia dizer onde era sua direita e sua esquerda, mas estava vivo. – Afora essas necessidades tão fundamentais para um homem e a cegueira estou bem. – Falou, enquanto o clérigo o encarava. – Não se preocupe, não é como o anel. É diferente. É... Poderoso. É sombrio. É como se tentasse me devorar, mas sinto que não devo me separar desse amuleto por enquanto. – Explicou, Lidda o olhou por algum tempo. Suspirou então deu ombros quando Daniel olhou para ela.

- Ele está bem. Digo... Não sinto nenhum mal nele. Na verdade tudo o que eu sinto é poder... – Falou movendo a mão para o colar e o mago desviou-se.

- Não toque nele. – Disse, em um movimento sutil para os outros. – Pode ser perigoso para mim se algum de vocês tocar, ele pode tentar invadir vocês e com isso eu já era. Tem outras seis peças desse pingente por aí. Se eu entendi a visão que tive tudo o que precisamos fazer é procurar e encontrar as seis, juntando a essa minha vida estará a salvo, por enquanto eu creio ter no máximo quinze dias de vida.

- E essa jornada só fica mais difícil. – Ironizou Morth. – Ora, vamos lá, não é como se estivéssemos em busca de algo impossível como matar um mago absurdamente poderoso que deseja consumir o poder de uma deusa ancestral para assumir seu posto e destruir toda uma raça em um único movimento, no meio de uma floresta amaldiçoada com uma tribo de elfos-zumbis-canibais-assassinos atrás de nós, esperando para nos matar, com um Caçador que não consegue controlar seu animal, um Lâmina do Crepúsculo que parece ter se tornado retardado, a Filha da dita Deusa que tem poder divino quase nulo em si e, é claro, um Shaman Dracônico que nunca se encontrou com seu dragão. – Ele respirou fundo. – Vai dar tudo certo. – Falou Morth, colocando seu escudo sobre o ombro e bebendo um gole de água. – Vamos seguir adiante, encontrar Evan Pickos e resgatá-lo, matar o mago, reunir as seis partes que faltam do amuleto amaldiçoado com uma criatura ancestral, livrar os elfos mortos da maldição e então, talvez então, nós possamos parar em uma pousada normal, comer uma boa comida, dormir em uma cama macia e descansar. – Seus pés começaram a se mover, viu os outros encarando suas costas então virou-se para olhá-los. – Vamos logo, ou vocês pretendem ficar parados aí o dia inteiro? 

Os passos do clérigo seguiam para norte, para o Mago da Floresta Negra, para a fortaleza sombria, para a luta que os aguardava, a luta que eles haviam escolhido lutar. Esperava poder ver Evan de novo algum dia, esperava poder sussurrar o quanto gostava da presença dele, de seu perfume e sua gentileza. Esperava que pudesse viver até salvar o jovem garoto do grupo de seres da noite que o sequestrara. Desejava chegar a tempo de seja lá o que fosse acontecer.

Enquanto o grupo andava, o Mago da Floresta Negra os observava, divertindo-se com sua força de vontade. Divertindo-se com seus desejos tão humanos, puros e diretos. Ouro, poder, salvação e amor. O mago ria, esperando em divertimento a chegada de seus convidados indesejados. Ao passo que eles se moviam a noite do eclipse se aproximava.

E depois do eclipse o mundo nunca mais seria o mesmo.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Asas Negras (5)

As ruas sujas recebiam o pouco sol que as nuvens de cinza monótono deixavam passar, sentado na calçada está um homem. Ele tem sua barba em negro e cinza, há migalhas de comida espalhadas por ela, seu rosto tem uma cicatriz única, abaixo do olho esquerdo, ressaltada em meio à sujeira de fuligem e dias sem banho, uma cruz cortada de cabeça para baixo. Uma queimadura antiga, que nunca irá desaparecer. Ela bebe da luz do dia, enquanto os olhos cegos do homem, leitosos e vazios, observam os arredores. Ele reza ao pai por perdão e não ouve nenhuma resposta. O homem se sente miserável, sente fome, sente dor, desde que acordou para o mundo a vida vem sendo assim, tudo é trevas, os poucos sinais luminosos são os seres que vivem das trevas. Demônios que ele se vê obrigado a caçar para proteger a si mesmo, para proteger aos outros.

O pedinte tem água benta dentro de sua garrafa de Jack Daniels há muito vazia. Não sente prazer algum no álcool e nem em nenhum outro vício mortal, não sente nenhum desejo por algo além de sua própria redenção, mas os céus esqueceram por completo de sua existência. Sua voz não os alcança, enquanto uma moeda bate em seu copo de metal.

- Muito obrigado... Que D- ... – Ele começa, mas para, engolindo em seco de surpresa. O brilho de duas asas lhe salta aos olhos. Intenso, firme, colossal. As asas de um anjo pecador, refletindo sombras e trevas, movendo-se como serpentes que indicam a catástrofe. – O que você quer? – O pedinte pergunta, ríspido, direto, sem nenhuma gentileza na voz. Ele está cansado da vida que leva, está cansado do corpo mortal e faminto, dos olhos cegos, das feridas nas pernas, está cansado de ter que contribuir com informações relevantes sobre as ruas onde finge viver e trabalha para os outros caídos como ele. Sua voz é escárnio e fúria à sombra do prédio de paredes pichadas com mensagens sombrias onde ele está encostado com sua cama feita de papel e seus pequenos tesouros sem significado.

- Acalme-se. Eu não vim lhe pedir informação dessa vez, E. – Diz uma voz feminina conhecida. – Mas que droga, odeio ressaca. Minha cabeça ainda tá girando. Não deveria ter bebido tanto ontem. – Reclamou a moça e o Pedinte não compreendeu o que estava acontecendo. – Ah, desculpe, só ainda não consegui organizar bem o que aconteceu. – Ela dizia isso e pegava algo de seu bolso, E pode ouvir. Talvez algo para a dor. Engoliu em seco e então olhou para a garrafa. Mesmo cego o Pedinte pode sentir os olhos dela sobre seu precioso bem, agarrou-o com força. – Não vim roubá-lo também.

- Devo repetir então a pergunta que fiz antes, L: O que você quer? – Dessa vez sua voz foi menos ríspida. Ele soou quase cansado. L sentiu isso e tocou o ombro dele, sentou-se e lhe ofereceu algo. E pegou, cheirou e o cheiro era bom, abriu a embalagem com cuidado e mordeu o primeiro pedaço, mastigou com calma, e respirou fundo, sentiu-se aliviado, poder comer algo que não tinha gosto de isopor era revigorante, satisfatório, um luxo que quase nunca lhe era permitido. Então ela lhe ofereceu outra coisa, uma forma cônica incompleta, um copo, grande o suficiente para ocupar toda sua mão. Refrigerante era algo que não entrava a muito tempo no seu cardápio, bebeu um longo e demorado gole. – Porra, Limão? – Reclamou e riu de si mesmo, bebendo outro gole.

- Foi mal, sabor cola tinha acabado, é fantástico como refrigerante de cola é consumido rápido por aqui, o que essas pessoas veem demais naquilo? – Pensou e roubou o copo das mãos do pedinte, tomando um gole. – E limão não é ruim, E. É bom pra caramba na verdade! – Sua voz foi quase censura, E não poderia ver o sorriso de verão. – Bom, é melhor pegar essa sua tão preciosa garrafa de Whisky com água e aquela sua bengala velha, vamos precisar andar.

- Não vai me dizer o que quer?

- Não até chegarmos aonde vamos. Se eu falar aqui tenho certeza de que irá apenas recusar e me mandar embora, você é um velho rabugento, E, precisa ser mimado e atraído para onde eu quero que esteja antes de eu jogar a bomba em cima de sua cabeça. – Havia um sorriso de quem estava pronta para devorar sentimentos na face de L, o Pedinte perdeu de poder vê-lo, porém pode sentir a malícia atravessando sua pele e chegando a seus ossos. – Ora, vamos, eu não vou lhe esfaquear num beco pra roubar sua água benta.

- Convenhamos que com o preço que o padre anda cobrando por isso nos últimos tempos não seria surpresa alguém fazê-lo. – Riu com sua boca de poucos dentes em meio à barba densa. Riu como não se lembrava de fazer a dia e isso lhe fez bem. Coçou o lado da cabeça e agarrou uma vara muito suja e muito marcada, várias marcas feitas a canivete nela. L avaliou, mais de cem. – Cada uma delas é um de nós que eu conheci. Disse, com certa calma, enquanto buscava nos bolsos um óculos. Encontrou-o. As lentes estavam rachadas e sujas, a haste de metal sobre elas estava enferrujada e desgastada, as pernas obviamente empenadas perdiam-se no cabelo sujo há muito tempo sem cortar. Ele coçou a cabeça enquanto escondia a garrafa de Jack Daniels no casaco muito remendado e tão sujo quanto todo o resto, tirou dos cabelos um piolho e o esmagou displicentemente. – “Não matarás”. – Falou com certa calma e L riu, sendo em seguida acompanhada por ele. – Mas me diga, menina, aonde vamos?

- Vamos à igreja. – Disse, enquanto dava a mão ao homem cego. Ele sentiu aquele calor humano, aquele calor gentil no dia quente que prometia chuva, a dolorosa chuva que nada limpava. E então se sentiu feliz, fechou os olhos nas sombras de seus óculos antigos e por baixo de sua barba suja um sorriso satisfeito apareceu. – G e o Padre esperam por nós lá.

- Oh... Entendo... Muitas coisas tem acontecido, não é? – Perguntou, olhando pra ela e L pode sentir que ele a via. – Você bebeu muito na noite anterior, creio que seja culpa de algo que ocorreu. – Pareceu pensar, enquanto sua mão tocava a testa da moça. – L, eu posso ver?

L relutou, e E pode sentir isso. Ela temia que o que havia acontecido pudesse abalar o Pedinte e ele compreendeu. Ela respirou fundo, parecendo pensar por alguns segundos quando colocou a mão dele sobre sua testa. Ele fez ali um sinal e fechou seus olhos.

Então viu.

A luz entrava pelas frestas nas janelas e vitrais destruídos, luz precária dos postes da rua que piscavam sem nenhum motivo aparente, sentada sobre o altar, observando a cruz de madeira rachada estava uma criança, ela tinha marcas negras subindo por seus braços, cinco caídos entravam para ver a cena. L abria a porta com calma, nunca tinha pressa na hora de caçar, era uma regra auto-imposta que a garota nunca desobedecia, nunca.

Os cinco se moveram, eram sombras armadas com armas quebradas, e as sombras do lugar moveram-se contra eles. Corpos lacerados, gente destruída, morte espalhada no ar. Eram cinco contra uma criança e cinco morreram. L sentiu-se assustada, a menina olhou pra ela, o que quer a possuísse arrancara seus olhos, as órbitas vermelhas choravam sangue seco, as lacerações nos cantos da boca lembravam um sorriso doentio, chorava e sorria, sofria e em sua mão um anel dourado como eram seus cabelos. Ela abriu a boca e a voz que saiu não era a de uma criança, nem mesmo era humana, era a voz de um habitante das trevas, um ser que existia abaixo da realidade e da moral. Um “feito de tinta” como G havia chamado. Era uma força anti-natural, um ser absurdo. “A força de um anjo guerreiro fraco” dissera o Padre, então um anjo fraco tinha a força para massacrar cinco deles com aquela facilidade? O pedinte pode sentir o medo percorrendo as camadas de sua pele, músculos e terminações nervosas e se acumulando na parte de trás de sua nuca enquanto observava pelos olhos de L a criança se mover em sua direção.

- Você quer brincar comigo, irmãzinha? – Aquela face macabra a encarou, as sobrancelhas levantadas, choro e dor, o sorriso sangrento estava ali, contrastando com aquelas lágrimas. – Quer? – Suas mãos se estenderam na direção da garota com asas de chumbo e as sombras pareceram se mover.

Então o Padre apareceu.

As mãos do Padre apenas se moveram, água benta sobre a criatura, seus olhos soltaram fogo vivo e prateado, sua pele borbulhou como água em ebulição, então uma lâmina arrancou fora o braço que continha o anel, enquanto girava, cortando a criança em dois. A criatura era a tatuagem no braço, ainda tentou se mover, mas o padre cuspiu sobre ela algo, foi rápido, foi doloroso, a menina com suas entranhas expostas gritou, gritou com a voz do demônio e gritou com sua voz de criança, então o silêncio reinou e o corpo dela foi engolido pelas chamas. O padre olhou anel, segurou-o entre os dedos e o girou, então olhou para L e jogou o pequeno item brilhante pra ela.

- O que devo fazer com isso? – Perguntou desnorteada.

- Use-o, guarde-o, dê para algum amigo que queira poder, en-... – Ele olhou pra ela então tossiu. – Faz o que você quiser, não tenho utilidade pra essa coisa. É fraca demais pra mim, mas pode ser útil pra você. Ainda sofre com as restrições, não é? Ter um desse aí como subordinado pode ser útil pra você.

- Subordinado... ?

- Coloque o anel, concentre o que restou de sua fé em seu braço. Espere não ser controlada por ele. – O padre riu. – Você consegue fazer isso, diferente desses aqui. – Apontou para os corpos mutilados no chão. – É tudo uma questão de saber seguir em frente. Não quer acabar como eles, quer? – Então os pedaços começaram a queimar, as únicas provas das lutas e do massacre da noite eram os bancos quebrados e o sangue no chão. Os corpos haviam sumido. – Do pó viemos e ao pó voltaremos. – Disse o padre, fazendo o sinal da cruz.

L colocou o anel em seu dedo.

No cinza de um dia dolorosamente quente E abriu seus olhos cegos e observou a forma feita de sombras da garota, no lugar onde devia estar seus braço havia um pequeno macaco azul agarrado à silueta fantasmagórica, os olhos da criatura eram amarelos e ele olhou para o Pedinte, ignorando sua existência.

- O que está acontecendo, L? – Perguntou, caminhando ao lado da garota novamente, não poderia vê-la, mas sabia que deveria parecer tonta. Todos ficavam quando um leitor entrava em suas mentes da forma como ele havia entrado.

- Eu já não lhe disse, E? – Ela falou, com uma risada que pareceu escárnio. – Se eu lhe contar aqui você irá embora antes de ouvir tudo.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A Sombra e Os Terrores da Noite

Pollux deu um passo à frente, era difícil caminhar com a perna de madeira, mas o que podia fazer? Flutuar seria gastar de sua escassa quantidade de mana apenas por um motivo trivial, com isso o mago andava atrás de todos, com dificuldades para acompanhar o ritmo imposto pela marcha de guerreiros que Jacket e o clérigo impunham ao grupo. Ao seu lado Daniel, um Shaman Dracônico movia-se com calma, comum à sua personalidade quase despreocupada, era leal como um cachorro bem treinado e fazia piadas tão ruins que bardos ruins chorariam de desgosto ao ouvi-las, era um homem que se preocupava com os companheiros, seus olhos estavam em Morth, o clérigo que ainda sofria com a morte de seu companheiro e antigo escravo Jay e do adorado e sempre animado Evan Pickos. Morth andava com seu humor em um tom sombrio, sentia-se talvez desnorteado e sua fé em seu deus estava um tanto abalada pelos acontecimentos recentes, seu estresse era notório pelo como falava com seus companheiros e isso preocupava a Dan muito mais do que o Shaman deixava aparentar. Jack, o caçador, ao lado seu tigre especialmente treinado para montaria ele analisava o caminho, um passo de cada vez, era o batedor do grupo, desviando-os de armadilhas, um verdadeiro guerreiro treinado para andar na floresta, seus passos eram silenciosos e sutis, seus olhos atentos e afiados como somente os olhos de um elfo poderiam ser, suas orelhas moviam-se como as de um cão buscando captar qualquer som estranho além do esmagar de folhas provocado pelas botas protegidas com metal do lâmina do crepúsculo e do clérigo, Jack era um elfo experiente em sua função, sua perícia com o arco surpreendia aos demais e suas habilidades de caça e montagem de acampamento, assim como a de saber sempre aonde ir eram uma adição necessária a aquele grupo mal preparado de caçadores de recompensa. Jacket, um arcanista que usava a espada, junto com seu servo invocado feito de pedra e a nova companheira grupo, a filha da deusa que perdia lentamente seus poderes, Lidda vinham logo atrás ao lado de Morth, Os jovens se moviam contra um tempo curto, pois sabiam que a criatura sagrada definhava lentamente, parte de seus poderes era lentamente devorado pela terra onde vivia e a qual não poderia abandonar e após tantos anos de existência ela agora caminhava para o abismo, precisando assim de um precioso item, cujo um possuidor era um antigo inimigo dos elfos daquelas terras, o homem da seita negra. O Mago da Floresta Negra.

Armados com sua coragem, força, armaduras e armas. Era tarde da noite quando resolveram finalmente montar acampamento, Jack observou o solo, tocando a lama sempre recente daquele local chuvoso por algum tempo, olhou os arredores, como se houvesse percebido algo. O jovem Elfo afiou suas orelhas e observou os rastros no chão, alguém havia sido arrastado ali, um homem grande, estimou que pelo menos setenta quilos, por algo que não tinha pernas para caminhar ou que sabia esconder os próprios rastros muito bem, mas não conseguia esconder os de um grande guerreiro ou bárbaro, respirou o ar frio daquela noite úmida, e sentiu os pelos de seu braço se eriçando, como se repentinamente soubesse que haviam caído em uma armadilha, ele sacou seu arco e colocou-se de prontidão, virando-se para o grupo, com a calma considerável que marcava seu temperamento, hora agitado, hora sereno.

- Há algo próximo a nós. – Alertou os companheiros, enquanto olhava ao redor. Seus olhos encararam a escuridão em busca de algo que pudesse ser visto. Então ele apenas ouviu o clérigo levantar-se, removendo sua maça pesada da cintura e apontar em direção às trevas semi-iluminadas daquele lugar.

- Ali! – Exclamou Morth, enquanto olhava para a criatura, os outros olharam em direção àquela criatura, observando-a. Em primeiro momento não conseguiram vê-la, estava escuro demais, mas lentamente seus olhos se acostumavam às sombras da noite, até conseguir enxergar.

O monstro era completamente composto de trevas, era translúcido e fez uma menção a tentar fugir, mas algo o impeliu a atacar, como se houvesse algum ser sussurrando uma ordem inaudível para aquele grupo. A criatura então moveu-se, rápida e cruel. A vítima fora o clérigo, ele a havia avistado, ele estava mais próximo às sombras daquela clareira, seria ele o primeiro a ser atacado pelo monstro, pronto para devorar-lhes. A sombra o tocou e o clérigo pode sentir uma parte de sua existência ser tomada. Houveram mil memórias e uma em sua mente, houve dor, e a dor quase o colocou sobre os joelhos e o clérigo reuniu sua fúria e suas lágrimas e contra atacou com sua maça, visando atingir a sombra e expulsá-la de dentro de si. A criatura se afastou e, se o ser tivesse boca, sorriria. Pois assim que se afastou a lâmina envolvida em poder do guerreiro arcano atravessou-lhe sem provocar danos. Então veio o mago.


Pollux era um estudante dedicado, talvez seu talento não fosse o maior de todos, mas sua habilidade em batalha era útil, e ganhara muito mais respeito de seus companheiros após conseguir derrotar uma fera gigante que cuspia raios com o poder de suas magias. O mago iniciou o contra-ataque ao disparar duas longas ondas de energia. Os raios rubros tomaram a forma de serpentes visando se chocar contra a criatura das trevas que ali estava presente. A primeira onda atravessou o inimigo como se ele fosse algo imaterial, mas o que devia preocupar a sombra era a segunda. O segundo raio começou a atravessá-lo e Pollux sentiu-se perto de falhar novamente em seu ataque, então a serpente feita de energia explodiu dentro da criatura. O ser de existência semi-imaterial sibilou como uma serpente ferida, preparando-se para atacar o jovem arcanista quando a espada do guerreiro que usava a magia novamente se moveu. Um giro rápido, carregado por uma onda de energia elétrica que o jovem conjurara sobre ela. O poder destrutivo feria o monstro, causando-lhe uma terrível onda de dor. Além disso, a deusa moribunda havia colocado sobre aquela arma o poder de sua bênção, era uma arma sagrada agora, lembrou-se Jacket, enquanto a arma rasgava como se fossem trapos velhos a existência dividida em dois planos da criatura. A luz da fogueira quase acesa a tornava perfeitamente visível, mas atacar seu corpo ainda era atingir algo que era apenas parcialmente tangível.

Morth recuperava-se do ataque do inimigo, sentia enjoo, tontura, sentia dor e frio, sentia o local onde ela havia tocado semi-congelado e dolorido, sentia a completa ausência de movimento em seu braço e sentia sua força potencialmente reduzida. Ele ergueu a mão que lhe sobrava aos céus. E sua voz ressoou pela densa floresta negra. Em um segundo a luz da fogueira tornou-se mais forte e a criatura pareceu repentinamente ferida, a aura sagrada do clérigo que orava em silêncio preenchia aquele espaço, enfraquecendo o monstro diante de si. "Apenas agora... Por favor, senhor, me dê sua força!" pensou o clérigo, dando um grito e espalhando a presença benigna de seu deus por todo aquele espaço.


Jack respirou fundo, encheu os pulmões, esvaziou e soltou a flecha, o arco tremeu com a força do disparo, mas novamente o corpo semi-tangível da criatura funcionava a seu favor, sendo atravessado pelo disparo sem que nada acontecesse a ela. Então fora a vez do tigre. A criatura treinada para obedecer e atacar para matar não precisou de ordem alguma do caçador para mover-se, suas garras rasgaram novamente o tecido negro do qual era composto aquele ser. O Shaman pediu forças à dragonesa prateada que havia visto em outro continente, sim, a criatura por quem ele se tornara aquilo que era, um homem que não tinha fé em deuses, mas sim nas coisas do mundo, tinha uma fé intensa de que poderia vencer com seu poder, mas ao atacar sua arma de metal frio apenas atravessou a criatura sem lhe causar danos.

O monstro mais uma vez se moveu, dançando ao lado de Lidda, sem visar atacá-la, uma sombra bailando no ar tentando distrair a atenção do grupo para então ir até seu verdadeiro objetivo, seu toque dessa vez buscou o mago, fora ele o causador do ferimento inicial, a dor em seu ser deixava isso claro, suas garras feitas de trevas moveram-se para devorá-lo, para arrancar-lhe a pouca força física que tinha, mas a aura pálida de luz do clérigo a enfraquecia e as sombras se dispersavam antes de tocar Pollux. O mago confiante sorriu para a sombra, enquanto Jacket aparecia atrás dela, o guerreiro que vestia-se sempre de vermelho atacou, e sua espada atravessou-a sem causar danos, mas o lâmina do crepúsculo era persistente, girou a espada, envolvendo-a novamente em magia antiga, aprendida a duras lições com mestres dedicados na antiga escola de seu país, um esforço que ele considerava útil, sua lâmina girou, rasgando a fera que viu parte de si ser banida ao seu antigo terreno de existência.

Novamente Pollux começava a conjurar sua magia, seu poder fluía para o ar e ele concentrava seu poder em seu cajado. O cajado que fora dado a ele por um deus de nome esquecido em troca de uma arma capaz de devorar armas. Ainda não compreendia por que um deus da Morte precisaria de uma arma feita pra absorver aquilo que ele deveria guardar do outro lado, mas não dava importância a isso, naquele momento era mais importante focar-se em manter seu poder arcano no máximo, era necessário ser Pollux, o mago. E assim ele o fez, ao reunir seu poder em duas novas ondas de energia que tomaram a forma de serpentes. E dessa vez ambas atingiram a criatura e ela tremeu de dor, pois a energia se enredou nela e começou a devorá-la. Lentamente as trevas desapareceram no ar, deixando para trás o vazio que ali deveria existir. Dan inspirou, Jack relaxou os ombros, e Lidda tocou em Morth que caiu de joelho vomitando sobre o chão.


Ninguém o julgou por aquilo, Pollux havia passado perto de ser tocado por aquele monstro e apenas a presença que sobrava da criatura já o deixava enjoado, a filha da deusa colocou o Elfo clérigo deitado e deu a ele um chá de ervas que ela levava sempre consigo. O chá fez o fiel no deus da justiça relaxar e depois de algum tempo dormir. Daniel sentiu-se atiçando a fogueira para afastar os maus espíritos, Jack afiava suas flechas em silêncio, enquanto Pollux abria seu grimório para preparar as magias que utilizaria no próximo dia. Todos estavam acostumados com aquilo, não comentaram nada, não conversaram sobre o que havia acontecido, comeram em silêncio soturno, observando a escuridão, esperando pelo inimigo que viria novamente no próximo dia. Esperando por mais um longo dia de luta, preparando-se para mais um dia buscando uma razão para ser algo além daquilo que eram.




***




O novo dia começou tranquilo. Daniel acordou animado e conversou com Morth sobre trivialidades como o tempo e outras coisas, Jack comentou que deveria chover em breve, mas não chovia, não naquele momento, mas o lugar permanecia lamacento, úmido e quente, o que era irritante, desde que haviam entrado ali nem uma única gota de chuva caíra do céu, mas ainda assim o chão nunca aprecia estar seco e isso irritava o Caçador e antigo patrulheiros de sua vila, Jack estava com um humor negro, o chão de barro úmido deveria facilitar saber para onde deveriam ir, deveria expor os sinais inimigos, deveria deixar claro onde ficava a fortaleza do Mago, mas aquela lama não mostrava nada, nenhum único sinal de que as coisas estavam ficando melhores do que antes. Por isso mantinha-se seguindo para norte, em direção à estrela brilhante, a direção que lhe fora apontada pela Deusa Enfraquecida como a correta

Os guerreiros levantaram acampamento, sobre uma chuva de ordens do Shaman, não era exatamente mais experiente que os demais, em meio à manada de pessoas de orelhas pontudas ali era quase uma criança, mas o fazia por sentir-se bem explicando aos companheiros as coisas óbvias que deviam fazer antes de irem, evitava assim que eles esquecessem cosias fundamentais, como amarrar a sacola de viagem ou separar as rações de viagem do restante das roupas para não sujá-las, pequenas advertências que os mantinham alinhados e serviam para que ele mesmo lembrasse do que tinha que fazer. Caminharam um dia inteiro até entrarem em uma larga clareira.

Pollux e Jacket rapidamente sentiram os efeitos do local, como o elemental invocado pelo guerreiro carmesim apenas desapareceu no ar, Morth e Jack posteriormente também. O caçador élfico sabia um pouco de magia ancestral, já o clérigo recebia de seu deus o poder de modificar a natureza, Pollux e Jacket eram casos mais extremos, ambos eram arcanistas completos e por isso o efeito daquele lugar sobre eles foi muito mais intenso do que sobre os dois usuários de magia divina. Com isso ambos apenas se olharam durante alguns segundos, antes de Jacket cair no chão debatendo-se como um peixe fora d'água.

- Deveríamos passar a noite aqui. – Sugeriu o mago e todos olharam pra ele, era óbvio que deveriam, perguntou-se se pareciam tão estúpidos ao ponto de ser necessário dizer algo como aquilo, ou talvez o mago estivesse supondo que fossem partir em uma ineficiente caminhada noturna em direção ao norte em uma terra desconhecida e lotada de inimigos. – Também deveríamos acender uma fogueira. – Dessa vez ela estranhou, mas não disse nada. O caçador parecia intrigado com a ideia de alimentar o Tigre com carne fresca usando as próprias mãos, enquanto clérigo falhava em encontrar sua pederneira para usar para criar faíscas para a fogueira. O Shaman avaliava a quantidade de óleo que precisariam para acender a madeira úmida por culpa do ambiente e apodrecida pelo tempo, mas desistiu da contabilidade e preferiu guardar o combustível para outra hora.

Lidda observou a cena intrigada, mas nada falou sobre aquelas atitudes estúpidas, aquele grupo era estranho, ela havia percebido isso naqueles dois dias de viagem com eles e se sua mãe havia enviado-a para ir naquela missão era por que eles eram capazes de cumpri-la, se não fossem morreriam, morreriam de toda forma no fim, ao menos estavam lutando por uma causa justa, ou assim pensava a garota, observando-os batalhar com galhos molhados para fazer uma fogueira, decidiu que seria inútil ali, então foi em direção à floresta, todos estavam ocupados em seus afazeres e ninguém estranhou a única moça do grupo se afastar ou lhe fez perguntas, não que não se importassem, não eram indelicados o suficiente para indagar o que uma moça iria fazer no meio do mato sozinha.


Gastou algum tempo preparando uma armadilha de corda. Havia sido surpreendidos na noite anterior, dessa vez seria diferente, se um inimigo viesse por aquele lado no terreno noturno eles seriam pegos por aquela armadilha. "Desde que tenham pernas para andar" pensou consigo mesma, mas não disse nada. Talvez sua armadilha fosse inútil para aprisionar um inimigo, mas poderia capturar algum animal residente naquele lugar, não haviam visto nenhum, mas deveria existir. Tomou um gole d'água e retornou ao acampamento. O lâmina do crepúsculo e o mago já estavam em suas camas, o Ranger havia desistido de alimentar o tigre e agora afiava novamente as flechas, enquanto Clérigo orava a seu deus sem muito fervor ou muita certeza do que pedia. Dan colocara água no fogo e agora arremessava algumas ervas dentro, deixando-as fervendo enquanto mordiscava a carne salgada e pão que trazia consigo, ofereceu um lugar para ela perto do fogo.

- Jacket foi dormir cedo... – Comentou, olhando para o jovem guerreiro arcano que roncava em um sono pesado. – Ele comeu? – Perguntou e Dan respondeu abanou com cabeça.

- Mordiscou um pedaço de pão, babando-o todo, então comeu a carne em sua vasilha como um cachorro, riu e uivou para a lua, então eu o mandei dormir e ele o fez prontamente. – Explicou, e então olhou ao redor. – Jack estava jurando que o Norte fica na direção oposta à estrela mais brilhante, o clérigo disse que a ideia de acender uma fogueira era ótima, já que realmente estava frio e o Mago me mostrou algumas palavras de seu grimório e me perguntou o significado delas. – Coçou a orelha. – Creio ser algum efeito desse lugar... Mas não me sinto diferente, nem me sinto mais fraco do que antes, e você? – Perguntou e Lidda deu de ombros.

- Aqui, outro lugar... Me sinto a mesma de sempre. Mas... Eles estão tão diferentes assim? Será a maldição do povo antigo? – Perguntou, olhando as chamas e roubando um pouco da carne salgada do jovem Shaman.

- Maldição do povo antigo? Essa é nova pra mim. – Tirou a caneca de ferro do fogo e procurou uma de cerâmica dentro da bolsa, encontrou duas, serviu-as em porções iguais e ofereceu uma à moça que aceitou com um sorriso. – Como é essa lenda? – Perguntou isso e tomou um gole do chá. Fez uma cara de tristeza, sentia falta de mel para adoçar o amargo daquelas folhas, mas era melhor do que apenas água quente, então tomava.

- Ah, é uma história antiga. – Explicou a moça tomando um gole e o Shaman fez um gesto pro fogo e então pro ar, mostrando que ela tinha bastante tempo e espaço para contar uma lenda. Além disso, Daniel gostava de uma boa estória, acharia divertido ver a filha de uma Deusa decadente contando algo como aquilo. Lidda fez um ar teatral e limpou a garganta. – Há muitos e muitos anos todas essas terras estavam sob à proteção divina de minha mãe e essa floresta era habitada por Elfos de minha tribo e de outra tribo que tinha sua morada à leste daqui, cada pequeno detalhe desse chão era coberto de grama e nossos jovens podiam aprender a caçar livremente sem preocupações, então o mago atacou. – Disse e apontou para os arredores. – A tribo do leste foi a primeira a ser atacada e foi aniquilada em poucos dias pelo poder implacável daquele homem. A presença de minha mãe então lentamente começou a abandonar esse lugar, pela falta de fieis que a mantivessem aqui, sem deuses para mantê-la além dela a floresta morreu até se tornar completamente escura como as trevas da noite.

- Por isso vocês o chamam "O Mago da Floresta Negra". – Constatou e ela fez que sim com a cabeça.

- Após matar todos naquela tribo o Mago os corrompeu, ele lentamente fez com que se levantassem, prontos para destruir minha vila, neles havia o poder de uma criatura profana, um traidor de algum outro deus mais antigo que o mago cultuava, a criatura trouxe de volta os mortos através de amuletos e deu a eles uma nova vida, e converteu-os em demônios das sombras, que a tudo devorariam e matariam, e tornariam aquilo domínio de seu senhor. Logo esse lugar se tornou um berço para o mau, para o caos e para as trevas. Não esperava que o efeito pudesse ser tão intenso em arcanistas e naqueles dois. Eu não sinto nada... – Então inspecionou as próprias mãos, à procura de algo. – Talvez tenha algo errado comigo... – Avaliou-se o Shaman a observou.

- Não se preocupe, não é como se fôssemos todos iguais, não é? – Falou, rindo um pouco. – Ora, vê? Minha pele lentamente se torna prata, o que significa que eu estou mais próximo de me tornar algo parecido com aquilo que eu admiro e respeito. O que nos diferencia nos torna mais fortes e se podemos conviver mesmo sendo tão diferentes é sinal de que sabemos como respeitar uns aos outros, não é? – Repentinamente sentiu-se idiota, mas perdoou-se por dizer aquilo. Então ele ouviu. Algo se movia nas sombras e o Shaman apenas gritou para seus companheiros

Jack saltava de sua posição de meditação e já chutava Jacket que dormia um sono muito pesado para que ele acordasse enquanto o clérigo e o mago acordavam com o grito de Dan. Lidda demorou algum tempo para tomar uma decisão, então se pôs em pose de combate. Então os inimigos atacaram. A flecha atingiu Pollux em cheio no ombro esquerdo e o mago sentiu-se ser tomado por uma sequência de dores, enquanto a ponta de metal lhe atingia o osso. Viu seu sangue escorrendo quando a flecha atravessou o local mesmo após ter sua ponta amassada. O movimento de seu braço estava agora debilitado por aquele golpe que ele não compreendera de onde havia vindo até ver a criatura de cabelos pálidos se movendo pelas sombras.

- Os habitantes da noite... – Sussurrou Lidda, enquanto olhava aquelas criaturas. A garota pareceu assustada, mas não fez qualquer menção de atacá-los. Eram cinco, ao menos visíveis, provavelmente um grupo de patrulha que havia visto a fogueira. A vila deles era afastada, então não eram meros patrulheiros. Refletiu pensando no que poderiam ser então Jack falou.

- Um grupo de caça. – Explicou o Elfo caçador. – Nem todos os homens tem coragens de caçar sozinhos, em algumas vilas eles formam grupos que caçam em conjunto. Devem ter visto a fogueira. – Deduziu e isso era bem óbvio. Mas de toda forma Lidda não o criticou, ela mesma duvidava de sua inteligência ao pensar que poderia acender uma fogueira naquele lugar. – Mas o que eles fazem caçando a essa hora da noite? Não há nada aqui...

- Viajantes. – Explicou, repentinamente surpreendida por sua conclusão. – Eles caçam viajantes despreocupados para devorá-los. – Concluiu a moça. As três flechas que sobravam nos arcos apontados voaram. A armadura do clérigo, a qual ele usava mesmo dormindo naquele lugar e portanto estava enlameada salvou-o de uma das setas envenenadas. O lâmina do crepúsculo viu uma passar próxima a sua face, causando-lhe um arranhão no lugar, o suficiente para deixá-lo levemente atordoado com o veneno e o Shaman conseguiu parar uma delas com seu escudo. Olharam ao redor para perceber que o Tigre de Jack saia de controle enquanto ele tentava montá-lo e puderam perceber que uma das criaturas à duas frente sorria deles. Ele se vestia diferente dos outros, sua pele também era mais escura, assim como seus olhos e cabelos eram de um branco ainda mais pálido. Em seu pescoço pendia um brilhante colar com um desenho sinistro. O homem sorriu, erguendo-o no ar então colocando-o no pescoço de um de seus aliados.

Jacket foi o primeiro a agir, mesmo com sua inteligência limitada naquele momento o espadachim utilizou de sua plena capacidade de movimento. Sua espada desceu em diagonal no momento em que ele pisou mais forte, os anos de treinamento físico fizeram seu trabalho, as aulas de espada, os gritos dos capitães mercenários, cada segundo da vida do homem que tinha cabelos prateados pesava naquele golpe e ele girou a arma de cima pra baixo, como um raio, as flechas ainda voavam e sangue negro como petróleo voou para a noite. O inimigo não tinha voz para falar, apenas deu um passo atrás, abandonando seu arco e preparando-se para sacar suas espadas curtas, mas antes de completar o movimento de soltar Morth estava sobre ele, o clérigo era ágil e a lua foi refletida na parte onde a flecha limpara a lama de sua armadura de metal. Sua maça pesada estraçalhou o crânio do inimigo, fazendo-o cair morto. Os outros quatro observaram a cena e não se intimidaram, um deles recuou, apontando seu arco na direção dos mais distantes, deixando os dois à frente para manter o terreno e talvez acabar com aqueles inimigos enquanto ele atirava nos mais afastados para evitar fugas. Era assim que caçavam, era assim que matavam seus inimigos um a um. Era assim que seria com aqueles seis. A mulher era inútil e o mago estava ferido demais, com isso seu número era igual, agora era necessário abater os feridos e conseguir ferir os outros, para inocular neles seu veneno. Se pudessem fazer isso venceriam, simples.

O caçador batalhava com o tigre descontrolado, sofrendo com a força do animal que tentava arremessá-lo no chão para devorá-lo, não compreendendo suas palavras e lentamente ficando mais e mais insano. Seus pelos eriçados e sua presas e garras buscavam ferir o Elfo. Em fúria assassina ele arremessava o jovem no ar e ele se agarrava com força, como se sua vida dependesse disso. Não permitiria que seus dedos fossem feridos, era um arqueiro, permitir-se perder o movimento das mãos era imperdoável. Saltou de cima da fera quando ela tentou mordê-lo, a criatura preparava-se para atacá-lo, babando em fúria e ele via-se sozinho contra ela, o Shaman corria para auxiliar os outros dois guerreiros, perguntou-se o que podia fazer, não era comum seu animal sair de controle daquela forma. Então preparou-se, a corda de seu arco arrebentara com o balançar violento, era necessário que sacasse sua adaga, fiel companheira para auxiliá-lo naquela luta. Perguntava-se o que mais poderia fazer além de sobreviver enquanto seus companheiros se concentravam em aniquilar os inimigos. Talvez a súbita falta de controle de seu companheiro animal fosse culpa de alguma magia inimiga. Seus olhos observaram as criaturas. Tudo o que tinha em suas mãos era sua preciosa adaga, ela cortara cordas para amarrar pilhas de madeira, inimigos e ajudar em fugas, cortara carne e talhara madeira, era sua faca favorita, uma companheira preciosa... Mas se ele conseguisse atingir um inimigo poderia matá-lo com ela e isso tiraria seu companheiro animal do transe no qual estava, então poderia se preocupar em conseguir uma nova faca ou recuperar aquela.

Os dedos ágeis do elfo giraram a lâmina e ele se preparou para dar um passo à frente quando o tigre moveu as garras para atacá-lo, forçando-o a desviar um pouco o corpo, a arma escapou de sua mão, voando longe e, com um estalo seco, atingindo as costas do Shaman que se curvou de dor e procurou um inimigo. Assim, Jack não tinha nada além de sua coragem e punhos para enfrentar uma criatura de mais de duzentos quilos com uma fúria assassina que vazava por seus olhos e presas afiadas o suficiente para arrancar um braço a mordidas.

Alheio à batalha do caçador para domar sua própria fera Dan voltou a correr em direção aos adversários visíveis, deixando Jack sozinho com o Tigre, no final das contas o animal era dele, se o atacasse o Elfo ficaria nervoso. Olhou para trás para ver se encontrava aquele que o havia atingido nas costas mais uma vez, a tempo de ver o mago correr em direção à floresta, e então soltar um grito, teria seguido atrás dele, mas Lidda já o fazia, e o fazia rápido. Era acostumada a caminhar em terrenos complicados enquanto ele sofria para se mover em meio ao terreno úmido e em péssimas condições. Perdeu-os de vista e já não havia tempo para se preocupar com eles, dois inimigos estavam diante dele e o terceiro sacava suas armas para lutar.

Atacou o adversário mais próximo e viu sua maça de metal atingir o adversário nas costelas em um estalo de galho sendo partido, o antigo elfo de pele negra grunhiu e derramou sangue negro de lodo pela boca, em seu pescoço um medalhão prateado balançava. Não se importou com aquilo, quando o terceiro inimigo se aproximou para atacá-los, provavelmente obedecendo a ordens do quarto membro mais afastado.

O homem elfo mais negro, que tinha a cabeça adornada por um par de chifres de veado sorriu e moveu as mãos para cima enquanto derramava uma semente no chão. Vinhas tentavam então agarrar as pernas dos guerreiros na linha de frente. Jacket saltou, evitando o abraço das ervas daninhas, porém Dan e Morth ficaram presos. Os inimigos dançaram ao redor deles, buscando uma brecha para atacá-los com suas lâminas embebidas em um veneno que enfraquecia o inimigo e paralisava parcialmente os membros. As adagas procuraram atingir o lâmina do crepúsculo, único membro ainda capaz de mover-se livremente daqueles três, se ele fosse aniquilado os outros dois seriam alvo fácil ou assim pensaram os três assassinos que tinham a forma de elfos negros vistos de perto.


Uma única adaga conseguiu ser mais ágil que o guerreiro rubro, a a lâmina atravessou o couro de sua roupa, e lhe provocou um corte abaixo das costelas, não chegando a nenhum órgão interno, mas perfurando fundo o suficiente para doer muito. Aquela ferida precisaria de cuidados para que não infeccionasse e o veneno não ajudava no tratamento. Mas para isso primeiramente precisava sobreviver e por isso atacou. Sua espada girou, rápida como o bote de uma serpente para decapitar o inimigo que o atingira pelas costas e no impulso do ombro rasgou do ombro à cintura outro inimigo. O cheio da podridão de sua carne o atingiu as narinas mas ele se manteve atento à batalha, o suficiente para se abaixar quando maça do clérigo moveu-se para esmigalhar novamente um crânio inimigo. Morth estava realmente em um dia para batalhas, suas mãos moviam-se desejando a matança e Dan pode perguntar se era correto um servo de Deus carregar tanta fúria, mas não se importou com isso, era irrelevante o quão gentil o clérigo era quando ele estava matando seus inimigos.

O terceiro deles agora preparava-se para tentar a fugir enquanto aquele que parecia ser seu líder já batia em retirada. Lidda retornava, carregando Pollux, ela havia removido a flecha de dentro do mago e dava a ele os primeiros socorros agora que voltara, e pode ver Jack finalmente conseguindo controlar seu animal enquanto Jacket tentava correr para a floresta atrás do inimigo que fugia e Daniel abatia o último adversário com um golpe na lateral da cabeça. Percebeu o sorriso na boca do inimigo que fugia. Então correu na direção dele e o derrubou, não sabia de onde havia retirado a força para isso mas o conseguiu. O Mago estava desmaiado, e fora o ferimento na cintura de Jacket e vários arranhões no corpo de Jack o grupo estava relativamente bem.

Dan sentou-se ainda alisando o lugar onde o pedaço voador de ferro o atingira, não vira o que tinha sido, e isso o irritava, a possibilidade de haver um outro inimigo espreitando pelas sombras. Viu seus companheiros deitando-se e voltando a dormir, enquanto Lidda sentava novamente ao seu lado depois de dar os devidos cuidados para Jacket e Jack. Ela olhou para as estrelas e então coçou o queixo.

- Eles... – Começou a filha da deusa.

- Vão ficar bem. Foram treinados pra isso, estão nessa vida a mais tempo que você. – Respondeu e então deu um sorriso. – Não se preocupe, se aceitamos a missão que sua mãe nos deu é por que sabemos que somos capazes de cumpri-la.

- Só havia vocês... Só há esse grupo. Vocês são nossa última esperança.

- Bom... – Sorriu, tomando um gole do chá que havia esfriado, o que não melhorava o seu gosto. Sentiu falta de mel. – Se há uma última esperança então há esperança. É suficiente para que lutemos. Não que sejamos soldados da esperança ou algo do tipo. Essa não é minha linha. – Falou, sem entender bem o que dizia então desenhou uma linha no chão com um galho. – Eu creio que lutar tendo fé de que podemos fazer o que estamos fazer é muito melhor do que lutar em desespero, não acha?

Lidda o encarou demoradamente, como se refletisse sobre aquilo, encostou-se na árvore caída na qual se sentava e ali dormiu. Dan manteve-se de guarda, atento a tudo o que acontecia sabia que se fossem surpreendidos seria difícil lutarem novamente, Jacket era um cara durão, mas estava ferido e se Jack não conseguia nem mesmo domar seu próprio animal como poderia esperar ser útil em batalha? Respirou fundo e esperou o sol nascer, iria levantar acampamento com os primeiros raios e partir para continuar sua missão.