sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Remédios Controlados

Em meus quinze anos de idade eu tive algumas poucas aventuras, ou assim pode se dizer, são as coisas que realmente marcaram o ano que dividiu mares em minha adolescência, saindo de meus quatorze anos onde nada demais havia ocorrido (exceto talvez a primeira vez que uma menina me cantou) desses poucos fatos relevantes valem ser ressaltados os seguintes: Torci o tornozelo direito duas vezes (que merda), uma jogando vôlei, a outra caminhando na rua e tropeçando (que merda²); Corri na chuva por uma namorada (que merda³), levei meu primeiro (e pior, mais sombrio, doloroso e porra, foda-se) corno (que merda x4). Mas, bom, isso não é exatamente relevante, o que é importante saber é que namorei as duas meninas, elas tomavam remédios controlados.

Porra, eu não sabia, é uma droga, não direi que sinto muito, as moças não têm culpa no caso, muito menos eu, foi bacana no começo, e no fim nem sempre as coisas terminavam bem, mas fazer o quê, né?
Chamo as gurias pra sair, elas aceitam (uma felicidade única, admito) vamos ao bar onde as coisas são viáveis para mim, minhas acompanhantes me bebem uma cerveja e começam a rir histericamente de todas as minhas piadas.

"Puta merda, sou o melhor comediante do mundo" Penso eu na primeira vez 

"Puta merda, de novo!" Penso eu na segunda.

"Sexo fácil hoje" Penso eu na primeira vez (Ah, a inocência adolescente).

"Vou levar ela pra caminhar, e assim ela chora ao meu lado. Vai ver o problema dela pode ser resolvido" Penso na segunda, já sabendo da tempestade que viria. Experiência duramente adquirida.

Chego no “motel” (quartinho dos fundos da pousada da família de um amigo meu, “altos abates” /nós chamávamos assim, sinto muito, é horrível, eu sei. Safadeza pura rolando ali quase todas as noites, uns cinco sujeitos usavam o lugar, e bom, vamos lá “abater” a moça ébria e deveras animada com minha companhia) com a primeira e dançante dama. Tiro a roupa dela, no meio das preliminares a guria começa a chorar, até hoje me lembro disso, até hoje me lembro da sensação que não ter CHÃO.

"Fodeu, o que eu fiz? Ela me odeia! Puta que pariu! O que tem de errado? Eu mordi com força demais? Caralho, porra, cu, xana, pelos pentelhos depilados de Vivi, para de chorar, caralho!" Pensei, no auge do meu desespero adolescente-sexualmente-ativo-insanamente-desejante-do-corpo-da-moça.

"Rodrigo..." Murmurou ela aos soluços.

"Meu... quem é Rodrigo, porra?" Perguntei, e sim, minha voz pareceu a do capitão Nascimento adolescente e ébrio.

"Meu namorado. Ex... Morreu, faz dois anos, e ele vive aparecendo nos meus sonhos e conversa comigo, fala pra eu ir encontrar com ele."

"CARALHO!" Pensou meu adolescente e desesperado eu, naquele momento. "A guria é esquizofrênica... Ok, ela vai me matar, me depilar, me estuprar e então roubar meus órgãos, beleza, EU! Parabéns!"

"Eu deveria apenas ter morrido com ele, foi por que a gente brigou que ele morreu. É minha culpa, tudo minha culpa! (chora descontroladamente)."

Noite adentro e lá está o rapaz moreno sentado (ainda nu e ereto) na cama, com a cabeça da guria no colo, fazendo carinho nela. Quase, sim, apenas quase, irritado com a cena, estava com pena demais dela para se sentir totalmente furioso, quase, sim, apenas quase, solidário à causa da moça, pois estava PUTO demais pra se sentir completamente sensível ao sofrimento da desgraçada pobre coitada, então acariciava seus cabelos e a ouvia lamuriar-se sobre o falecido Rodrigo... Por longas e sofríveis duas horas e meia.
Pobre rapaz o tal Rodrigo, 19 anos, estudando medicina, filho de família bem dotada financeiramente, simpático, primeira transa e primeiro beijo da nossa adorável protagonista, era de peixes, gostava de ver o pôr-do-sol, de caminhar na praia, de cantar Nando Reis, de Titãs, de sexo ao ar livre e de boquetes de adolescentes inexperientes que nem sempre eram sua namorada da época. Gente finíssima o finado, atiraria nele se fosse capaz.

O defunto, morto há dois anos, faria vinte e um anos em duas semanas da data na época, e meu jovem eu marcou mentalmente aquele dia para ir poder mijar na cova do filho da puta, sobre as flores da família, cuspir e (talvez) cagar sobre o local onde deveria ficar sua cabeça, uma vingança singela pela noite perdida, oras, por que não? Obviamente tal vingança nunca foi realizada, felicito-me, uma semana depois um rapaz foi preso por invadir o cemitério á noite como eu pretendia.

Bom, a moça deitada sobre meu colo decide que já me encheu demais com “histórias de gente morta". "Obrigado, filha da puta" pensou meu eu da época, um tanto revoltado por ela só ter percebido isso agora, mas perdoemos: ela estava bêbada, então ela vai ao banheiro, vomita a porra toda com vinho barato(mais do que eu sabia que podia pagar, mas a moça, gentilmente, ofereceu-se para repartir a conta) cerveja ruim(Bavária, sim, era o que tinha, desculpa) e carne seca e uma massa colenta, quase gosmenta e semenforme (acabo de inventar essa palavra) de aipim do escondidinho de R$ 15,99 de nossa fantástica noite no boteco mais viável para meu falido e adolescente eu.

Não que eu seja exatamente mais rico hoje, mas na época eu era um sujeito deveras fodido, na real “Muito fodido” era pouco, quando eu comprava um pastel de dois reais na escola eu me sentia o Bill Gates andando no meio da galera com meu queijo duro e (provavelmente) reaproveitado de outros seis pasteis não comidos por completo e deixados no pratinho em cima do balcão. Perdoemos o meu jovem rapaz: não trabalhava e bom, mesmo sendo gordinho me sentia mal pedindo dinheiro ao meu pai pra comer na escola (até por que quase nunca comia) então juntava o troco de tudo o que eu comprava até ter dinheiro o suficiente pra transar com alguém. (O que implicava ter dinheiro pra comprar um pacote de camisinha e o fabuloso escondidinho de R$ 15,99 do barzinho mais em conta.) o que significava que quase nunca eu tinha dinheiro pra merda nenhuma, em lugar nenhum, andava mais relento que o Nando Reis pós-titãs.

Bom, depois de observar o estrago que a moça fez (sentir pena, ok, muito pouca, admito, do pessoal que limparia aquilo) e me esforçar para não vomitar também, resolvi que seria digno de minha cavalheresca pessoa, como bom guerreiro natural que era, com minha ereção massiva ainda desejando extravasar na calça, deixar nossa humilde e carinhosa dama em casa.

Caminhemos, dois quilômetros e meio, pois taxi? Quem paga quarenta reais por 2,5km? Tá louco? Lembremos, eu era MUITO fodido, então vamos gastar a sola do allstar tamanho 42 de 40 “real”, já quase furando, rasgado nas laterais, com cadarço quase marrom e não mais branco, e deixar a inocente dama, com hálito de escondidinho, vinho e antidepressivos mal processados, pois bem... Não quero ser assassinado em um beco pela descortesia de comer a filha de alguém e nem mesmo deixar a desgraçada em casa (mesmo não tendo feito nada, e, obviamente, odiando minha vida naquele momento).

"Uma hora da manhã... Isso são horas?"

Perguntou o pai, policial federal, com a arma na cintura, com um olhar que fez o meu eu da época (e faria o meu eu atual) trancar a porta do toba, por que não? Disfarcei minha súbita vontade de urinar (acompanhada pela ainda volumosa ereção) com minha blusa de frio apertando a cintura, erro estúpido, isso só aumentou minha vontade de ir ao banheiro e chamou a atenção para minha calça. O notável (tá, nem tanto) volume estava ali, e o policlal encarou demoradamente meu josefrâncio (nome carinhoso que dei ao meu órgão viril na época), pensei que ele ia dizer "deixa eu chupar, se tiver com gosto de escondidinho você morre!" mas ao invés disso ele me falou "eu conheço seu pai" ótima forma de dizer "eu sei onde você mora, babaca.", o que não diminuiu minha vontade de mijar.

"Ela bebeu muito?"

Perguntou-me o homem, encarando com olhos que avaliavam minha posição hetero-viríl-ocidental-brasileiro-moreno-com-cabelo-moicano-e-cavanhaque, não pareceu gostar do que viu (seja lá o que tenha visto) em minha cara, pois deu aquela torcida de nariz fantástica, e eu fazia aquela semi-dança (sabe, passar o peso de uma perna pra outra, quase sutilmente) de quem quer MUITO ir ao banheiro/sair correndo.

"Não, senhor." respondi. E porra, onde eu arrumei essa coragem? De onde diabos saiu aquele “senhor” ele não era o rei de Esparta, era só um policial à paisana DOIDO pra me comer vivo das piores formas possíveis. Do nada, sim, veio do “nada” essa “coragem”, mais tirada do cu que o cosmo do Seiya.

"Você tomou seu remédio hoje?" Ele encarou a menina pela primeira vez na noite e eu, juro, percebi pela primeira vez que ela ainda estava ali, antes existiam apenas eu, minha vergonhosa ereção, minha vontade colossal de colocar o Josefrâncio pra fora e mijar na arma do policial, na esperança de que isso desarmasse a mesma, e, óbvio, o cara de 2.10m, 105kg, negro, armado, mais rápido, mais forte, com o pau provavelmente maior que o meu, e claro, muito mais bem provido de armamentos que eu. O que me deixou incapacitado de compreender que AINDA existia outro alguém ali.

O cara executou uma série de perguntas à guria que, mesmo perturbada, semi-bêbada, vomitada, quase drogada pelo remédio misturado ao álcool, e viajando por dimensões paralelas enquanto fingia dançar uma música inaudível, conseguiu responder que eu não havia feito "nada demais" só havíamos "conversado e curtido a noite, e então rolou o vômito, então ele me trouxe em casa".

"Obrigado, filha da puta, não me fodeu da forma boa, pelo menos não me fodeu da forma ruim também!" Gritou o meu jovem eu dentro de sua complexa existência lotada de hormônios. Lembremos: Eu era adolescente, bonito (Ok, nem tanto), descolado (ou quase) e potencialmente babaca. justificável? Sim. É comum que adolescentes sejam uns babacas, ande na rua e encontrará cem rapazes que foram completamente babacas hoje o dia inteiro e nem ao menos se deram conta disso, perceber que fui um babaca não torna minhas atitudes da época mais legais, nem justificáveis, mas vendo desse ponto ao menos posso rir de minha própria estupidez autoconfiante.

Então a moçoila entrou, o pai ficou me olhando até eu virar a esquina, sentia seus olhos em minhas costas e perguntei se ele estava me encarando daquele jeito por que sabia que eu havia feito algo com sua filha ou por achar minha bunda (a qual sempre foi elogiada) um pedaço de toucinho agradável. Quase (apenas, quase) corri os últimos dez metros: Estava desesperado o suficiente pra isso, estava com vontade de ir ao banheiro o suficiente pra isso. Quase (apenas quase) virei e falei “chupa meu pau, babaca, chupei sua filha com a força de um aspirador marciano!”, isso provavelmente teria me matado, mas meu eu da época cogitou que a ideia valia à pena. Quase (apenas... ah, você entendeu!) fiz tudo isso, não exatamente nessa ordem, mas tive medo demais do cara começar a atirar em mim com a arma que ele tinha na cintura pra isso, então após virar a esquina (e conferir que o negro maravilhoso não me seguia para me exterminar) parei ali e mijei durante exatos quarenta segundos, lavei a calçada com urina semi-transparente e com cheiro de Bavária. Puta que pariu, melhor mijada.

Uma semana depois eu e a garota começamos a namorar.

O pai dela me adora, até hoje me chama pros churrascos da família.

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