quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O Amuleto Herege



A manhã veio com chuva e Dan praguejou algo na língua dos dragões enquanto levantava-se para arrastar Pollux para baixo de uma árvore, o ferimento feito pela flecha era feio, mas a magia de Lidda havia evitado o pior, assim o mago sobrevivia, respirando com dificuldades. “Três dias assim e ele morrerá... Precisamos voltar à vila.” Pensou, observando o companheiro ferido. Coçou a lateral da cabeça, deixou seus olhos procurarem as coisas, fazia duas noites que não tinha descanso, seu corpo implorava por uma cama de palha e comida de verdade e a chuva matinal apenas servia para aniquilar aquilo que sobrara de seu ânimo, com isso estava mal-humorado, cansado e suas costas doíam da pancada recebida na noite anterior.
Levantou-se para observar Jacket procurando algo entre os corpos mortos. O lâmina do crepúsculo revirava as criaturas de um lado pro outro, em sua mente pouco racional, por culpa dos efeitos mágicos daquele lugar, encontrar coisas brilhantes poderia ser algo interessante, até mesmo divertido. Não se lembrava da noção de dinheiro, valor, ou ouro, mas do prazer de ter a bolsa pesada com coisas brilhantes dentro. Isso era comum, instintivo nos homens gananciosos como era o guerreiro arcano. Assim sendo procurava em meio às carcaças já apodrecidas dos seres da noite, e em meio à lama eternamente fresca daquele lugar encontrou algo.

O colar era prata brilhante, destacado, belo. Detalhado com asas de um anjo que segurava uma espada em uma mão, na outra algo como a luz do sol. Atrás dele castelos caiam destruídos e ao observar no fundo daquele relevo prateado tão detalhado pode ver que as escrituras se moviam, pôde ver as pessoas correndo, as guerras acontecendo, o medo, a dor e o terror das pessoas ao tentar fugir do alcance do ser que os atacava. Sentiu-se ser devorado, tragado para dentro daquele caos de destruição infinita, morte e dor. Sentiu seu braço enfraquecendo, sentiu fome e por instinto soube que aquilo era maligno. Então olhou ao redor e viu Pollux encostado numa árvore.

Nas memórias da mente ainda animalizada de Jacket o mago era alguém que gostava de forças sombrias, sentia-se atraído por elas, e passou pela sua cabeça que talvez, apenas talvez, o mago pudesse se sentir interessado por aquele colar. Somando isso à sua necessidade de se livrar do encantamento maligno que fazia seu membro superior doer o guerreiro arremessou o objeto prateado contra o arcanista desmaiado.
Pollux tremeu uma vez, grunhiu e então sua pele converteu-se em um tom pálido como osso. Seu coração parou de bater, sua mente parou de funcionar e ele morreu. Por fim seu corpo lentamente começou a tornar-se negro, sombras feitas de trevas, sua carne ardia, seus ossos rachavam e ele abriu os olhos, gritando de dor, seu grito foi breve, seco e então sua voz morreu.
O mago caiu em sono profundo em seguida e sonhou.

Acima das nuvens tudo era pequeno, ínfimo, cansativo, todos esses seres insignificantes, todas essas existências sem significado, cada uma delas, formigas caminhando sobre o nada, sobre essa esfera de poeira e água, chorando suas pequenas mortes, lutando suas pequenas guerras, qual o sentido dessa criação? Eu perguntei aos sete pais. Os criadores de tudo, aqueles que existem para não morrer, os deuses acima dos deuses, os pais dos pais. 

E eles riram de mim.

Não compreendi, não entendi, por que riram? Por que se divertiram com minha dúvida? Oras! Entendo que é incomum que um ser como eu não compreenda algo, mas é necessário esse escárnio? Qual o sentido desse desprezo? Por que me odiavam os criadores? Por que me viam tão ridiculamente pequeno ao ponto de me apontar o dedo e rir? Então a voz dos sete ecoou em minha mente, era assim que falavam, era assim que riam, de modo que pudessem ser ouvidos mesmo que desejássemos não escutá-los.
- Quer tanto assim compreender qual o sentido da mortalidade, Arthan? – Perguntaram-me, oras, é claro que eu desejava compreender a mortalidade, qual o significado de ser pequeno e finito num mundo de existências inacabáveis. Qual a lógica disso? – Então te daremos esse poder. – Riram novamente as sete vozes. – Tu agora existirás eternamente entre os mortais, não como o observador celeste, mas como parte deles. – A dor de ser rasgado em sete, suas mãos puxavam minha carne, separando-a de meus ossos, era insana demais essa dor, eu nunca pensei que sentiria algo assim, e agora sentia. – Vá, imortal, e compreenda os prazeres da mortalidade, morra infinitamente, até que lhe juntem as sete partes. Vá, imortal, e compreenda o desejo da carne, sem nunca viver por completo, apenas coexistindo na mente daqueles que lhe julgam uma espécie de divindade. Vá, observador do infinito e nos dê alguma diversão.

***

Pollux acordou, e sentiu algo estranho em seus membros, seus companheiros lhe olhavam surpresos, não podia compreender, por que tudo estava tão escuro, por que todos eles eram apenas espectros de energia reconhecíveis, não pode entender por que não conseguia se mover, então ouviu sua própria voz falando e percebeu que não era ele a falar.

- Eu sou Arthan, o Observador do Infinito. Sinto que fui colocado dentro de um ser com poder arcano, devo crer um mago. Estarei tomando este corpo para cumprir meu dever. – Pollux gritou em sua própria mente, sentindo-se pequeno, excluído. Viu Dan falar algo que ele não ouviu. Mas a resposta o fez quase poder adivinhar a pergunta. – Eu sou um ser além de sua insignificante compreensão mortal, meu poder transcende em muito o seu, e a ira divina de minha espada irá recair sobre aqueles que tentarem se interpor em meu caminho. – Pollux novamente gritou e sentiu sua mão tocar sua face. – Cale-se, mortal.

- Não! – Ele disse à criatura, e quando percebeu ela estava diante de si, era seu corpo, inclusive a perna arrancada. Às suas costas um par de asas negras, a carne de seus braços desaparecia deixando apenas os ossos envoltos em uma manta de pura energia arcana, seus olhos emanavam poder, cegos a toda e qualquer luz, e seu rosto tivera a carne consumida até chegar no rosto onde antes virava seu nariz e seu lábio superior, dando-lhe o aspecto de um cavalheiro da morte. – O corpo é meu, eu não irei permitir que o controle como bem quiser, não importa o que você é! – Disse à criatura no auge de sua coragem, encarou-a no fundo de suas órbitas brancas e leitosas

- Não? – Perguntou o monstro, erguendo sua espada. – Ousa se opor à minha vontade? – perguntou, e havia diversão no lugar de fúria em sua voz.

- Você não entendeu, criatura. – Disse o mago, apontando sua mão na direção dele, enquanto uma esfera de energia ali se formava. – Você está dentro da MINHA mente, querendo tomar MEU corpo. Tudo neste ambiente pertence a mim, você não será diferente. – A onda de poder atingiu a criatura e Arthan riu, porém sentiu-se enfraquecido, era estranho, não deveria estar tão fraco àquele ponto, seria isso reflexo do corpo estar rejeitando-o? O que era aquela criança para isso? Como alguém poderia apenas negar sua presença daquela forma? Isso o divertiu, pois nunca havia sido desafiado antes e agora o era por um ser que deveria ser infinitamente inferior ao seu nível.

- Eu aceitarei seu desafio, mortal. – Disse, percebendo que seu braço desaparecia. – Divirta-me! – Sua espada se moveu, e parte do corpo de Pollux foi carregada com aquele movimento, do lado de fora Daniel e os outros gritavam algo, Pollux não ouviu, não conseguia ouvir. – Lute comigo, mortal! Lute com todo seu poder! Mostre-me que é senhor desse mundo insignificante que você chama de mente! – Gritava, enquanto partia para atacá-lo.

- Eu já lhe falei. Este lugar é minha mente. – Corrente subiam do chão agarrando a criatura, Arthan olhou para aquilo surpreso. – Agora retorne às profundezas e descanse, criatura. Volte daqui mil anos, quando seu poder for suficiente para fazer frente à minha vontade. – Falou, seus olhos se abriram do lado de fora, repentinamente ciente de tudo que o cercava, Pollux vomitou, seus sentidos estavam estranhamente superiores aos anteriores, sua mente funcionava plenamente.

- Quinze dias. – Disse um sussurro do ser que habitava seu interior. – Você tem quinze dias para encontrar uma forma de me tirar de seu interior, mortal.

- Pollux. – Falou para si mesmo. – Meu nome é Pollux, seu merda. – Disse, cuspindo no chão.

- Nenhum dos anteriores durou mais que quinze dias, mortal. – Ele riu. – Viva mais que isso e eu talvez faça algum esforço para me lembrar de seu nome. Mas duvido que alguém como você consiga. Deveria apenas me dar o controle de seu corpo e me deixar lutar por mim mesmo, seria muito mais fácil.

- Nunca. – Respondeu o mago, olhou suas mãos e elas estavam completamente negras, tocou sua face e sentiu seu rosto no lugar, sua perna ainda era a de madeira tosca e de difícil mobilidade de sempre, mas ao menos isso confirmava que estava de novo em seu corpo. Isso indicava que precisava seguir em frente. “Sete pedaços” pensou o mago. “Se eu reunir os sete pedaços me livro dele... Se reunir os sete pedaços eu volto a viver...” Falou, colocando a mão sobre seu coração que não mais batia. Daniel tocou seu ombro, não pode vê-lo, mas pode reconhecer que o era pela aura prateada e dracônica dele.

- Está bem? – Perguntou, sua voz denotava preocupação, sentiu o mundo balançar de forma sombria ao redor daquele guerreiro, viu ferimentos, dor, um passado difícil de fome, de fogo, de salvamento por parte de um dragão de prata. – Pollux?

- Estou bem, Dan. – Disse, levantando-se. – Eu preciso de água, preciso de descanso, e acho que uma ou duas prostitutas viriam bem a calhar. – Falou girando sua visão ao redor, não sabia dizer onde era sua direita e sua esquerda, mas estava vivo. – Afora essas necessidades tão fundamentais para um homem e a cegueira estou bem. – Falou, enquanto o clérigo o encarava. – Não se preocupe, não é como o anel. É diferente. É... Poderoso. É sombrio. É como se tentasse me devorar, mas sinto que não devo me separar desse amuleto por enquanto. – Explicou, Lidda o olhou por algum tempo. Suspirou então deu ombros quando Daniel olhou para ela.

- Ele está bem. Digo... Não sinto nenhum mal nele. Na verdade tudo o que eu sinto é poder... – Falou movendo a mão para o colar e o mago desviou-se.

- Não toque nele. – Disse, em um movimento sutil para os outros. – Pode ser perigoso para mim se algum de vocês tocar, ele pode tentar invadir vocês e com isso eu já era. Tem outras seis peças desse pingente por aí. Se eu entendi a visão que tive tudo o que precisamos fazer é procurar e encontrar as seis, juntando a essa minha vida estará a salvo, por enquanto eu creio ter no máximo quinze dias de vida.

- E essa jornada só fica mais difícil. – Ironizou Morth. – Ora, vamos lá, não é como se estivéssemos em busca de algo impossível como matar um mago absurdamente poderoso que deseja consumir o poder de uma deusa ancestral para assumir seu posto e destruir toda uma raça em um único movimento, no meio de uma floresta amaldiçoada com uma tribo de elfos-zumbis-canibais-assassinos atrás de nós, esperando para nos matar, com um Caçador que não consegue controlar seu animal, um Lâmina do Crepúsculo que parece ter se tornado retardado, a Filha da dita Deusa que tem poder divino quase nulo em si e, é claro, um Shaman Dracônico que nunca se encontrou com seu dragão. – Ele respirou fundo. – Vai dar tudo certo. – Falou Morth, colocando seu escudo sobre o ombro e bebendo um gole de água. – Vamos seguir adiante, encontrar Evan Pickos e resgatá-lo, matar o mago, reunir as seis partes que faltam do amuleto amaldiçoado com uma criatura ancestral, livrar os elfos mortos da maldição e então, talvez então, nós possamos parar em uma pousada normal, comer uma boa comida, dormir em uma cama macia e descansar. – Seus pés começaram a se mover, viu os outros encarando suas costas então virou-se para olhá-los. – Vamos logo, ou vocês pretendem ficar parados aí o dia inteiro? 

Os passos do clérigo seguiam para norte, para o Mago da Floresta Negra, para a fortaleza sombria, para a luta que os aguardava, a luta que eles haviam escolhido lutar. Esperava poder ver Evan de novo algum dia, esperava poder sussurrar o quanto gostava da presença dele, de seu perfume e sua gentileza. Esperava que pudesse viver até salvar o jovem garoto do grupo de seres da noite que o sequestrara. Desejava chegar a tempo de seja lá o que fosse acontecer.

Enquanto o grupo andava, o Mago da Floresta Negra os observava, divertindo-se com sua força de vontade. Divertindo-se com seus desejos tão humanos, puros e diretos. Ouro, poder, salvação e amor. O mago ria, esperando em divertimento a chegada de seus convidados indesejados. Ao passo que eles se moviam a noite do eclipse se aproximava.

E depois do eclipse o mundo nunca mais seria o mesmo.

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