terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Asas Negras (5)

As ruas sujas recebiam o pouco sol que as nuvens de cinza monótono deixavam passar, sentado na calçada está um homem. Ele tem sua barba em negro e cinza, há migalhas de comida espalhadas por ela, seu rosto tem uma cicatriz única, abaixo do olho esquerdo, ressaltada em meio à sujeira de fuligem e dias sem banho, uma cruz cortada de cabeça para baixo. Uma queimadura antiga, que nunca irá desaparecer. Ela bebe da luz do dia, enquanto os olhos cegos do homem, leitosos e vazios, observam os arredores. Ele reza ao pai por perdão e não ouve nenhuma resposta. O homem se sente miserável, sente fome, sente dor, desde que acordou para o mundo a vida vem sendo assim, tudo é trevas, os poucos sinais luminosos são os seres que vivem das trevas. Demônios que ele se vê obrigado a caçar para proteger a si mesmo, para proteger aos outros.

O pedinte tem água benta dentro de sua garrafa de Jack Daniels há muito vazia. Não sente prazer algum no álcool e nem em nenhum outro vício mortal, não sente nenhum desejo por algo além de sua própria redenção, mas os céus esqueceram por completo de sua existência. Sua voz não os alcança, enquanto uma moeda bate em seu copo de metal.

- Muito obrigado... Que D- ... – Ele começa, mas para, engolindo em seco de surpresa. O brilho de duas asas lhe salta aos olhos. Intenso, firme, colossal. As asas de um anjo pecador, refletindo sombras e trevas, movendo-se como serpentes que indicam a catástrofe. – O que você quer? – O pedinte pergunta, ríspido, direto, sem nenhuma gentileza na voz. Ele está cansado da vida que leva, está cansado do corpo mortal e faminto, dos olhos cegos, das feridas nas pernas, está cansado de ter que contribuir com informações relevantes sobre as ruas onde finge viver e trabalha para os outros caídos como ele. Sua voz é escárnio e fúria à sombra do prédio de paredes pichadas com mensagens sombrias onde ele está encostado com sua cama feita de papel e seus pequenos tesouros sem significado.

- Acalme-se. Eu não vim lhe pedir informação dessa vez, E. – Diz uma voz feminina conhecida. – Mas que droga, odeio ressaca. Minha cabeça ainda tá girando. Não deveria ter bebido tanto ontem. – Reclamou a moça e o Pedinte não compreendeu o que estava acontecendo. – Ah, desculpe, só ainda não consegui organizar bem o que aconteceu. – Ela dizia isso e pegava algo de seu bolso, E pode ouvir. Talvez algo para a dor. Engoliu em seco e então olhou para a garrafa. Mesmo cego o Pedinte pode sentir os olhos dela sobre seu precioso bem, agarrou-o com força. – Não vim roubá-lo também.

- Devo repetir então a pergunta que fiz antes, L: O que você quer? – Dessa vez sua voz foi menos ríspida. Ele soou quase cansado. L sentiu isso e tocou o ombro dele, sentou-se e lhe ofereceu algo. E pegou, cheirou e o cheiro era bom, abriu a embalagem com cuidado e mordeu o primeiro pedaço, mastigou com calma, e respirou fundo, sentiu-se aliviado, poder comer algo que não tinha gosto de isopor era revigorante, satisfatório, um luxo que quase nunca lhe era permitido. Então ela lhe ofereceu outra coisa, uma forma cônica incompleta, um copo, grande o suficiente para ocupar toda sua mão. Refrigerante era algo que não entrava a muito tempo no seu cardápio, bebeu um longo e demorado gole. – Porra, Limão? – Reclamou e riu de si mesmo, bebendo outro gole.

- Foi mal, sabor cola tinha acabado, é fantástico como refrigerante de cola é consumido rápido por aqui, o que essas pessoas veem demais naquilo? – Pensou e roubou o copo das mãos do pedinte, tomando um gole. – E limão não é ruim, E. É bom pra caramba na verdade! – Sua voz foi quase censura, E não poderia ver o sorriso de verão. – Bom, é melhor pegar essa sua tão preciosa garrafa de Whisky com água e aquela sua bengala velha, vamos precisar andar.

- Não vai me dizer o que quer?

- Não até chegarmos aonde vamos. Se eu falar aqui tenho certeza de que irá apenas recusar e me mandar embora, você é um velho rabugento, E, precisa ser mimado e atraído para onde eu quero que esteja antes de eu jogar a bomba em cima de sua cabeça. – Havia um sorriso de quem estava pronta para devorar sentimentos na face de L, o Pedinte perdeu de poder vê-lo, porém pode sentir a malícia atravessando sua pele e chegando a seus ossos. – Ora, vamos, eu não vou lhe esfaquear num beco pra roubar sua água benta.

- Convenhamos que com o preço que o padre anda cobrando por isso nos últimos tempos não seria surpresa alguém fazê-lo. – Riu com sua boca de poucos dentes em meio à barba densa. Riu como não se lembrava de fazer a dia e isso lhe fez bem. Coçou o lado da cabeça e agarrou uma vara muito suja e muito marcada, várias marcas feitas a canivete nela. L avaliou, mais de cem. – Cada uma delas é um de nós que eu conheci. Disse, com certa calma, enquanto buscava nos bolsos um óculos. Encontrou-o. As lentes estavam rachadas e sujas, a haste de metal sobre elas estava enferrujada e desgastada, as pernas obviamente empenadas perdiam-se no cabelo sujo há muito tempo sem cortar. Ele coçou a cabeça enquanto escondia a garrafa de Jack Daniels no casaco muito remendado e tão sujo quanto todo o resto, tirou dos cabelos um piolho e o esmagou displicentemente. – “Não matarás”. – Falou com certa calma e L riu, sendo em seguida acompanhada por ele. – Mas me diga, menina, aonde vamos?

- Vamos à igreja. – Disse, enquanto dava a mão ao homem cego. Ele sentiu aquele calor humano, aquele calor gentil no dia quente que prometia chuva, a dolorosa chuva que nada limpava. E então se sentiu feliz, fechou os olhos nas sombras de seus óculos antigos e por baixo de sua barba suja um sorriso satisfeito apareceu. – G e o Padre esperam por nós lá.

- Oh... Entendo... Muitas coisas tem acontecido, não é? – Perguntou, olhando pra ela e L pode sentir que ele a via. – Você bebeu muito na noite anterior, creio que seja culpa de algo que ocorreu. – Pareceu pensar, enquanto sua mão tocava a testa da moça. – L, eu posso ver?

L relutou, e E pode sentir isso. Ela temia que o que havia acontecido pudesse abalar o Pedinte e ele compreendeu. Ela respirou fundo, parecendo pensar por alguns segundos quando colocou a mão dele sobre sua testa. Ele fez ali um sinal e fechou seus olhos.

Então viu.

A luz entrava pelas frestas nas janelas e vitrais destruídos, luz precária dos postes da rua que piscavam sem nenhum motivo aparente, sentada sobre o altar, observando a cruz de madeira rachada estava uma criança, ela tinha marcas negras subindo por seus braços, cinco caídos entravam para ver a cena. L abria a porta com calma, nunca tinha pressa na hora de caçar, era uma regra auto-imposta que a garota nunca desobedecia, nunca.

Os cinco se moveram, eram sombras armadas com armas quebradas, e as sombras do lugar moveram-se contra eles. Corpos lacerados, gente destruída, morte espalhada no ar. Eram cinco contra uma criança e cinco morreram. L sentiu-se assustada, a menina olhou pra ela, o que quer a possuísse arrancara seus olhos, as órbitas vermelhas choravam sangue seco, as lacerações nos cantos da boca lembravam um sorriso doentio, chorava e sorria, sofria e em sua mão um anel dourado como eram seus cabelos. Ela abriu a boca e a voz que saiu não era a de uma criança, nem mesmo era humana, era a voz de um habitante das trevas, um ser que existia abaixo da realidade e da moral. Um “feito de tinta” como G havia chamado. Era uma força anti-natural, um ser absurdo. “A força de um anjo guerreiro fraco” dissera o Padre, então um anjo fraco tinha a força para massacrar cinco deles com aquela facilidade? O pedinte pode sentir o medo percorrendo as camadas de sua pele, músculos e terminações nervosas e se acumulando na parte de trás de sua nuca enquanto observava pelos olhos de L a criança se mover em sua direção.

- Você quer brincar comigo, irmãzinha? – Aquela face macabra a encarou, as sobrancelhas levantadas, choro e dor, o sorriso sangrento estava ali, contrastando com aquelas lágrimas. – Quer? – Suas mãos se estenderam na direção da garota com asas de chumbo e as sombras pareceram se mover.

Então o Padre apareceu.

As mãos do Padre apenas se moveram, água benta sobre a criatura, seus olhos soltaram fogo vivo e prateado, sua pele borbulhou como água em ebulição, então uma lâmina arrancou fora o braço que continha o anel, enquanto girava, cortando a criança em dois. A criatura era a tatuagem no braço, ainda tentou se mover, mas o padre cuspiu sobre ela algo, foi rápido, foi doloroso, a menina com suas entranhas expostas gritou, gritou com a voz do demônio e gritou com sua voz de criança, então o silêncio reinou e o corpo dela foi engolido pelas chamas. O padre olhou anel, segurou-o entre os dedos e o girou, então olhou para L e jogou o pequeno item brilhante pra ela.

- O que devo fazer com isso? – Perguntou desnorteada.

- Use-o, guarde-o, dê para algum amigo que queira poder, en-... – Ele olhou pra ela então tossiu. – Faz o que você quiser, não tenho utilidade pra essa coisa. É fraca demais pra mim, mas pode ser útil pra você. Ainda sofre com as restrições, não é? Ter um desse aí como subordinado pode ser útil pra você.

- Subordinado... ?

- Coloque o anel, concentre o que restou de sua fé em seu braço. Espere não ser controlada por ele. – O padre riu. – Você consegue fazer isso, diferente desses aqui. – Apontou para os corpos mutilados no chão. – É tudo uma questão de saber seguir em frente. Não quer acabar como eles, quer? – Então os pedaços começaram a queimar, as únicas provas das lutas e do massacre da noite eram os bancos quebrados e o sangue no chão. Os corpos haviam sumido. – Do pó viemos e ao pó voltaremos. – Disse o padre, fazendo o sinal da cruz.

L colocou o anel em seu dedo.

No cinza de um dia dolorosamente quente E abriu seus olhos cegos e observou a forma feita de sombras da garota, no lugar onde devia estar seus braço havia um pequeno macaco azul agarrado à silueta fantasmagórica, os olhos da criatura eram amarelos e ele olhou para o Pedinte, ignorando sua existência.

- O que está acontecendo, L? – Perguntou, caminhando ao lado da garota novamente, não poderia vê-la, mas sabia que deveria parecer tonta. Todos ficavam quando um leitor entrava em suas mentes da forma como ele havia entrado.

- Eu já não lhe disse, E? – Ela falou, com uma risada que pareceu escárnio. – Se eu lhe contar aqui você irá embora antes de ouvir tudo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário