As ruas
sujas recebiam o pouco sol que as nuvens de cinza monótono deixavam passar,
sentado na calçada está um homem. Ele tem sua barba em negro e cinza, há
migalhas de comida espalhadas por ela, seu rosto tem uma cicatriz única, abaixo
do olho esquerdo, ressaltada em meio à sujeira de fuligem e dias sem banho, uma
cruz cortada de cabeça para baixo. Uma queimadura antiga, que nunca irá
desaparecer. Ela bebe da luz do dia, enquanto os olhos cegos do homem, leitosos
e vazios, observam os arredores. Ele reza ao pai por perdão e não ouve nenhuma
resposta. O homem se sente miserável, sente fome, sente dor, desde que acordou
para o mundo a vida vem sendo assim, tudo é trevas, os poucos sinais luminosos
são os seres que vivem das trevas. Demônios que ele se vê obrigado a caçar para
proteger a si mesmo, para proteger aos outros.
O pedinte
tem água benta dentro de sua garrafa de Jack Daniels há muito vazia. Não sente
prazer algum no álcool e nem em nenhum outro vício mortal, não sente nenhum
desejo por algo além de sua própria redenção, mas os céus esqueceram por
completo de sua existência. Sua voz não os alcança, enquanto uma moeda bate em
seu copo de metal.
- Muito
obrigado... Que D- ... – Ele começa, mas para, engolindo em seco de surpresa. O
brilho de duas asas lhe salta aos olhos. Intenso, firme, colossal. As asas de
um anjo pecador, refletindo sombras e trevas, movendo-se como serpentes que
indicam a catástrofe. – O que você quer? – O pedinte pergunta, ríspido, direto,
sem nenhuma gentileza na voz. Ele está cansado da vida que leva, está cansado
do corpo mortal e faminto, dos olhos cegos, das feridas nas pernas, está
cansado de ter que contribuir com informações relevantes sobre as ruas onde
finge viver e trabalha para os outros caídos como ele. Sua voz é escárnio e
fúria à sombra do prédio de paredes pichadas com mensagens sombrias onde ele
está encostado com sua cama feita de papel e seus pequenos tesouros sem
significado.
-
Acalme-se. Eu não vim lhe pedir informação dessa vez, E. – Diz uma voz feminina
conhecida. – Mas que droga, odeio ressaca. Minha cabeça ainda tá girando. Não
deveria ter bebido tanto ontem. – Reclamou a moça e o Pedinte não compreendeu o
que estava acontecendo. – Ah, desculpe, só ainda não consegui organizar bem o
que aconteceu. – Ela dizia isso e pegava algo de seu bolso, E pode ouvir.
Talvez algo para a dor. Engoliu em seco e então olhou para a garrafa. Mesmo
cego o Pedinte pode sentir os olhos dela sobre seu precioso bem, agarrou-o com
força. – Não vim roubá-lo também.
- Devo
repetir então a pergunta que fiz antes, L: O que você quer? – Dessa vez sua voz
foi menos ríspida. Ele soou quase cansado. L sentiu isso e tocou o ombro dele,
sentou-se e lhe ofereceu algo. E pegou, cheirou e o cheiro era bom, abriu a
embalagem com cuidado e mordeu o primeiro pedaço, mastigou com calma, e
respirou fundo, sentiu-se aliviado, poder comer algo que não tinha gosto de
isopor era revigorante, satisfatório, um luxo que quase nunca lhe era permitido.
Então ela lhe ofereceu outra coisa, uma forma cônica incompleta, um copo,
grande o suficiente para ocupar toda sua mão. Refrigerante era algo que não
entrava a muito tempo no seu cardápio, bebeu um longo e demorado gole. – Porra,
Limão? – Reclamou e riu de si mesmo, bebendo outro gole.
- Foi
mal, sabor cola tinha acabado, é fantástico como refrigerante de cola é
consumido rápido por aqui, o que essas pessoas veem demais naquilo? – Pensou e
roubou o copo das mãos do pedinte, tomando um gole. – E limão não é ruim, E. É
bom pra caramba na verdade! – Sua voz foi quase censura, E não poderia ver o
sorriso de verão. – Bom, é melhor pegar essa sua tão preciosa garrafa de Whisky
com água e aquela sua bengala velha, vamos precisar andar.
- Não vai
me dizer o que quer?
- Não até
chegarmos aonde vamos. Se eu falar aqui tenho certeza de que irá apenas recusar
e me mandar embora, você é um velho rabugento, E, precisa ser mimado e atraído para
onde eu quero que esteja antes de eu jogar a bomba em cima de sua cabeça. –
Havia um sorriso de quem estava pronta para devorar sentimentos na face de L, o
Pedinte perdeu de poder vê-lo, porém pode sentir a malícia atravessando sua
pele e chegando a seus ossos. – Ora, vamos, eu não vou lhe esfaquear num beco
pra roubar sua água benta.
-
Convenhamos que com o preço que o padre anda cobrando por isso nos últimos
tempos não seria surpresa alguém fazê-lo. – Riu com sua boca de poucos dentes
em meio à barba densa. Riu como não se lembrava de fazer a dia e isso lhe fez
bem. Coçou o lado da cabeça e agarrou uma vara muito suja e muito marcada,
várias marcas feitas a canivete nela. L avaliou, mais de cem. – Cada uma delas
é um de nós que eu conheci. Disse, com certa calma, enquanto buscava nos bolsos
um óculos. Encontrou-o. As lentes estavam rachadas e sujas, a haste de metal sobre
elas estava enferrujada e desgastada, as pernas obviamente empenadas perdiam-se
no cabelo sujo há muito tempo sem cortar. Ele coçou a cabeça enquanto escondia
a garrafa de Jack Daniels no casaco muito remendado e tão sujo quanto todo o
resto, tirou dos cabelos um piolho e o esmagou displicentemente. – “Não matarás”.
– Falou com certa calma e L riu, sendo em seguida acompanhada por ele. – Mas me
diga, menina, aonde vamos?
- Vamos à
igreja. – Disse, enquanto dava a mão ao homem cego. Ele sentiu aquele calor
humano, aquele calor gentil no dia quente que prometia chuva, a dolorosa chuva
que nada limpava. E então se sentiu feliz, fechou os olhos nas sombras de seus
óculos antigos e por baixo de sua barba suja um sorriso satisfeito apareceu. –
G e o Padre esperam por nós lá.
- Oh...
Entendo... Muitas coisas tem acontecido, não é? – Perguntou, olhando pra ela e
L pode sentir que ele a via. – Você bebeu muito na noite anterior, creio que seja
culpa de algo que ocorreu. – Pareceu pensar, enquanto sua mão tocava a testa da
moça. – L, eu posso ver?
L
relutou, e E pode sentir isso. Ela temia que o que havia acontecido pudesse
abalar o Pedinte e ele compreendeu. Ela respirou fundo, parecendo pensar por
alguns segundos quando colocou a mão dele sobre sua testa. Ele fez ali um sinal
e fechou seus olhos.
Então
viu.
A luz
entrava pelas frestas nas janelas e vitrais destruídos, luz precária dos postes
da rua que piscavam sem nenhum motivo aparente, sentada sobre o altar,
observando a cruz de madeira rachada estava uma criança, ela tinha marcas
negras subindo por seus braços, cinco caídos entravam para ver a cena. L abria
a porta com calma, nunca tinha pressa na hora de caçar, era uma regra
auto-imposta que a garota nunca desobedecia, nunca.
Os cinco
se moveram, eram sombras armadas com armas quebradas, e as sombras do lugar
moveram-se contra eles. Corpos lacerados, gente destruída, morte espalhada no
ar. Eram cinco contra uma criança e cinco morreram. L sentiu-se assustada, a
menina olhou pra ela, o que quer a possuísse arrancara seus olhos, as órbitas
vermelhas choravam sangue seco, as lacerações nos cantos da boca lembravam um
sorriso doentio, chorava e sorria, sofria e em sua mão um anel dourado como
eram seus cabelos. Ela abriu a boca e a voz que saiu não era a de uma criança,
nem mesmo era humana, era a voz de um habitante das trevas, um ser que existia
abaixo da realidade e da moral. Um “feito de tinta” como G havia chamado. Era
uma força anti-natural, um ser absurdo. “A força de um anjo guerreiro fraco”
dissera o Padre, então um anjo fraco tinha a força para massacrar cinco deles
com aquela facilidade? O pedinte pode sentir o medo percorrendo as camadas de
sua pele, músculos e terminações nervosas e se acumulando na parte de trás de
sua nuca enquanto observava pelos olhos de L a criança se mover em sua direção.
- Você
quer brincar comigo, irmãzinha? – Aquela face macabra a encarou, as sobrancelhas
levantadas, choro e dor, o sorriso sangrento estava ali, contrastando com
aquelas lágrimas. – Quer? – Suas mãos se estenderam na direção da garota com
asas de chumbo e as sombras pareceram se mover.
Então o Padre
apareceu.
As mãos
do Padre apenas se moveram, água benta sobre a criatura, seus olhos soltaram
fogo vivo e prateado, sua pele borbulhou como água em ebulição, então uma
lâmina arrancou fora o braço que continha o anel, enquanto girava, cortando a
criança em dois. A criatura era a tatuagem no braço, ainda tentou se mover, mas
o padre cuspiu sobre ela algo, foi rápido, foi doloroso, a menina com suas
entranhas expostas gritou, gritou com a voz do demônio e gritou com sua voz de
criança, então o silêncio reinou e o corpo dela foi engolido pelas chamas. O
padre olhou anel, segurou-o entre os dedos e o girou, então olhou para L e
jogou o pequeno item brilhante pra ela.
- O que
devo fazer com isso? – Perguntou desnorteada.
- Use-o,
guarde-o, dê para algum amigo que queira poder, en-... – Ele olhou pra ela
então tossiu. – Faz o que você quiser, não tenho utilidade pra essa coisa. É
fraca demais pra mim, mas pode ser útil pra você. Ainda sofre com as
restrições, não é? Ter um desse aí como subordinado pode ser útil pra você.
-
Subordinado... ?
- Coloque
o anel, concentre o que restou de sua fé em seu braço. Espere não ser
controlada por ele. – O padre riu. – Você consegue fazer isso, diferente desses
aqui. – Apontou para os corpos mutilados no chão. – É tudo uma questão de saber
seguir em frente. Não quer acabar como eles, quer? – Então os pedaços começaram
a queimar, as únicas provas das lutas e do massacre da noite eram os bancos
quebrados e o sangue no chão. Os corpos haviam sumido. – Do pó viemos e ao pó
voltaremos. – Disse o padre, fazendo o sinal da cruz.
L colocou
o anel em seu dedo.
No cinza
de um dia dolorosamente quente E abriu seus olhos cegos e observou a forma
feita de sombras da garota, no lugar onde devia estar seus braço havia um
pequeno macaco azul agarrado à silueta fantasmagórica, os olhos da criatura
eram amarelos e ele olhou para o Pedinte, ignorando sua existência.
- O que
está acontecendo, L? – Perguntou, caminhando ao lado da garota novamente, não
poderia vê-la, mas sabia que deveria parecer tonta. Todos ficavam quando um
leitor entrava em suas mentes da forma como ele havia entrado.
- Eu já
não lhe disse, E? – Ela falou, com uma risada que pareceu escárnio. – Se eu lhe
contar aqui você irá embora antes de ouvir tudo.
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